Capital de Giro (Ruth Meira)
Arquivo FolhaFernando Henrique: ‘‘Os que podem se dar ao luxo de bailar, bailam; outros, que não podemos, não bailamos’’FOLIA DO ARROCHO
Pacote, só de confete e serpentina. Nenhum choque-surpresa no embalo da folia desses dias de Carnaval. A promessa é do presidente Fernando Henrique. Ele jurou nessa semana, durante cerimônia no Palácio do Planalto, que o governo não vai aproveitar a festa de Momo para tascar um amontoado de medidas econômicas na população brasileira em meio ao tumulto dos trios elétricos pelo País afora. Segundo FHC, ‘‘o Carnaval é uma época fértil para mentir ao povo, mas também é um momento para que se diga a verdade: que não vai acontecer nada de diferente no Carnaval, a não ser o que sempre acontece em nossos carnavais’’. E completou, em tom de lamentação: ‘‘Os que podem se dar ao luxo de bailar, bailam; outros, que não podemos, não bailamos’’. De ‘‘qualquer maneira’’, disse o presidente, ‘‘aproveitamos para explicar que não há razão para inquietar a população a respeito de qualquer medida que o governo eventualmente vá tomar, porque não vai tomar medida alguma que possa afetar quem quer que seja na direção que os especuladores desejam’’. Conferimos na quarta-feira de Cinzas.


A NOVELA DO MÍNIMO
Tudo indica que o salário mínimo não vai ter grandes avanços na data-base de reajuste do piso nacional, em maio. Quando ‘‘especulados’’ sobre o assunto, o presidente Fernando Henrique Cardoso e os ministros têm se esquivado. Nesta semana, durante a inauguração do gasoduto Brasil-Bolívia, em Corumbá, o presidente foi pra lá de evasivo. Indagado pelos jornalistas sobre o provável índice que será repassado ao salário, respondeu com outra pergunta: ‘‘Que dia é hoje?’’ E emendou, cheio de mistério: ‘‘Vamos esperar mais um pouquinho’’.



Se vai ter reajuste, o trabalhador ainda não sabe. Mas já amargou uma redução de salário este ano. Com o tombo do real, a renda mensal do assalariado foi corroída em cerca de 35%. Quando foi dormir, dia 13, recebia um salário equivalente a US$ 107 (R$ 130). Com a ‘‘mágica cambial’’, o valor em moeda norte-americana despencou, à cotação atual, para US$ 68. Mas o trabalhador vive no Brasil e compra em reais, argumentam alguns. Em termos, pode-se dizer. O pão, feito com trigo importado, subiu. O combustível, idem. E, de carona, uma série de produtos que, ou tiveram aumento, ou ensaiam decolagens.



Em setembro de 94, quando o mínimo era de R$ 64,79, o presidente afirmou, em tom de promessa eleitoral, que dobraria o valor em seu primeiro mandato. Não foi bem assim. Quando o salário foi alçado para a faixa de R$ 130, em maio de 98, o governo de fato quase dobrou o valor, mas o aumento foi nominal, sem considerar a inflação do período. Com o repasse da alta do custo de vida dos doze meses anteriores, o mínimo deveria ter subido bem mais, para R$ 190. Aí, sim, duplicando o poder de compra do assalariado. Com a ‘‘bruxaria aritmética’’, o governo só deu a impressão ao trabalhador de que ele passara a receber o dobro de antes. Na prática, não foi o que aconteceu.



O nó da correção do mínimo é histórico. O governo não pode se entusiasmar nos reajustes porque agravaria o déficit público, com grande impacto nas contas da Previdência Social, prefeituras e governos estaduais. Tudo indica que o argumento vai se repetir este ano. O ministro Francisco Dornelles, do Trabalho e do Emprego, não fala em percentuais, mas já avisa que o assunto vai ser tratado ‘‘mais do ponto de vista técnico que político’’. Importante para o governo, segundo Dornelles, é levar em conta o salário real do trabalhador, o seu poder de compra, e não o valor nominal do mínimo. Nesse sentido, o melhor caminho, acha, é ‘‘preservar a estabilidade da moeda’’. Difícil vai ser convencer os trabalhadores mais uma vez disso.

NOTA BAIXA
NOTA BAIXA
‘‘Fui professor do ministro Malan. Se ele foi um bom aluno, não vai desvalorizar o real’’
Albert Fishlow, brasilianista americano, no ano passado, no Rio de Janeiro

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