Capital de Giro (Ruth Meira)
Josoé de CarvalhoJabor: ‘Estamos mais sábios’PAÍS DO ABSURDO
Quem esperava ouvir do cineasta e comentarista Arnaldo Jabor, na noite de quarta-feira em Londrina, um relato pessimista da situação econômica brasileira, pontuado por uma saraivada de críticas a modernismos como a globalização, possivelmente se surpreendeu. Para ele, o caos financeiro internacional pode ser positivo para o Brasil, ‘‘uma Pátria abstrata que precisa despertar para a realidade’’.
Bom frasista e hábil em mexer em vespeiros - Jabor chegou a defender o fechamento do Congresso Nacional, proposta que considerou uma ‘‘arrogância’’ durante a palestra em Londrina - ele disse que a crise econômica pode permitir uma ‘‘mutação da perspectiva nacional’’. Para ele, os brasileiros estão começando a ter clareza maior do próprio País. ‘‘Estamos mais sábios’’, disse Jabor, para quem os brasileiros, ‘‘com a tradição patrimonialista herdada dos colonizadores portugueses’’, tiveram sempre uma visão precária dos seus próprios vícios e das razões dos seus fracassos. ‘‘Atribuímos historicamente a causas exógenas a origem dos nossos problemas. Achamos que o inimigo sempre vem de fora. Agora, apesar da crise ser mundial, estamos começando a refletir sobre os nossos defeitos endêmicos’’.
Bom, porque os craques da economia mundial não têm a menor idéia do que vai acontecer daqui para a frente. Essa conclusão, Jabor tirou depois de assistir à reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, no mês passado. ‘‘O que deu para perceber é que os grandes economistas estão perdidos. Um diz que o país vai quebrar, o outro, que não. Um defende o controle do fluxo cambial, o outro, ataca. É impressionante a falta de clareza geral em relação ao que está acontecendo no mundo’’.

Confira alguns trechos da palestra de Arnaldo Jabor, que aconteceu durante o encontro Maxi Economia promovido pelos formandos da primeira turma em Londrina de MBA (mestres em administração de negócios) na área de Finanças:‘‘Temos no Brasil um estado de preguiça social. As pessoas buscam emprego, não a empresa. Esse papo cristão, trazido pelos portugueses, de que é feio ganhar dinheiro e ficar rico, pegou aqui. Empresa virou quase sinônimo de desobediência civil. Empreender, ousar, não são virtudes. No mundo inteiro, é diferente. Ganhar dinheiro é bonito, sim. A vida humana é um mercado mesmo’’
‘‘O socialismo é nobre. Mas a sociedade de massa é tão complexa e o homem tão sem-vergonha, tão vagabundo, que é impossível colocar isso em prática. Todos nós somos uns canalhas. Basta ter um pouco de poder’’
‘‘No Brasil, até a palavra trabalho tem sentido pejorativo. Tem origem em uma espécie de tortura que quebrava todos os ossos das pessoas. O Hino Nacional não fala, em momento algum, em trabalho, que para nós é vil, menor. Fala só da natureza, que estava aí para os colonizadores explorarem. É essa a nossa mentalidade, somos uns exilados em nossa própria terra’’
‘‘É uma coisa inquietante: somos uma pátria abstrata. Só na Copa do Mundo a gente chora junto’’.
‘‘Eu estava em Salvador, recentemente, e o Antônio Carlos Magalhães me telefonou para dizer, gentilmente, que a Bahia ‘era minha’. É assim aqui no Brasil. O Maranhão é do Sarney. O coronelismo está no nosso sangue. Mas o ACM é um conservador interessante. Diferente do Paulo Maluf, por exemplo, que é um direitista fascista’’.
‘‘Tenho uma tese econômica em relação à ditadura no Brasil: nos aprisionaram para contrairmos a dívida externa e depois nos libertaram para pagarmos’’
‘‘O jornalismo brasileiro ficou fascinado com a sua condição de vítima da ditadura’’
‘‘Nos anos Sarney começamos a entender que democracia não é só liberdade de expressão e direito a voto. A água começou a baixar e ficou visível a estrutura podre do prédio. O absurdo brasileiro foi aparecendo. Descobrimos um Estado falido, um Judiciário organizado para manter privilégios seculares. Vimos que aqui o Estado não era público, era privado’’
‘‘Fiquei perplexo com o confisco do dinheiro no governo Collor. Confesso que até meio fascinado. Perdi tudo o que tinha, mas era a primeira vez que o Antonio Ermírio de Moraes perdia dinheiro comigo. Achei até corajoso, a impressão era a de que estávamos em uma espécie de democracia masoquista’’.
‘‘O Collor chamava os carros brasileiros de carroças, mas foi perder o Poder logo por um Fiat Elba? É isso mesmo: fala moderna e prática arcaica’’
‘‘Na era Collor, o Brasil virou um puxadinho da Casa da Dinda’’
‘‘O PC Farias foi um professor de sociologia. A aula prática sobre malandragem que ele deu à Nação, nem Gilberto Freire conseguiu’’
‘‘A capacidade de errar do Fernando Collor era de uma esquizofrenia revolucionária. Ele errava e deixava tudo visível’’
‘‘Nós todos, os brasileiros, somos os agiotas do Estado. Emprestamos dinheiro a ele a juros de 40% ao ano’’
‘‘Vamos pegar um ou dois anos de barra pesada. Mas aqui no Brasil, sem pavor, não se faz nada’’
Sobre FHC:‘‘Ele cometeu algumas barbeiragens, demorou muito para ajustar o câmbio, por exemplo. Mas é difícil embarcar em uma canoa (o capitalismo moderno) sem ser levado pela correnteza. Ele foi muito sabotado’’

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