Capital de Giro (Ruth Meira)
Capital de Giro (Ruth Meira)
Arquivo FolhaClaudio Norberto de Paula, presidente da Selmi:
Desperdício e gordura são palavras cortadasFERMENTO NA RECEITA
A partir de segunda-feira, a indústria Selmi, de Londrina, coloca em operação um novo equipamento que vai permitir à fábrica aumentar em quase 40% a produção de massas secas, segmento em que é líder nacional. A empresa, com sede na cidade paulista de Sumaré e filial em Londrina desde 1960, é o único grande grupo nacional do setor - está entre as quatro maiores indústriais no Brasil - que não se rendeu aos encantos dos investidores estrangeiros na onda de fusões.
A tendência de formação de joint-ventures com grupos internacionais e de concentração da produção em torno das grandes empresas vem se consolidando. Principalmente nos últimos dois anos. Mas o presidente da Selmi, Cláudio Norberto de Paula, diz que parcerias no front externo não fazem parte dos planos do pastifício londrinense. A empresa pretende continuar caminhando com as próprias pernas, atenta a um mercado em franco crescimento.
A nova máquina adquirida pela Selmi, fabricada na Itália, está em fase final de montagem, é inteiramente computadorizada e revoluciona o processo de produção da empresa. A anterior permitia a fabricação de até 600 quilos de massas secas por hora. A nova, 2.500 quilos/hora. O primeiro lote de macarrão hi-tech sai da indústria já na semana que vem, abrindo caminho para a empresa se firmar no topo do ranking nacional. E brigar, de igual para igual, com os fortes grupos que vão se formando após a febre de parcerias.
O ajuste fiscal não deve abalar muito esse segmento. O macarrão já é um produto adaptado a países em crise, observa Norberto de Paula. O custo no ponto-de-venda é baixo, o que incorpora ao mercado o consumidor de baixa renda (outro artigo em expansão no Brasil da crise real). Além disso, há um potencial de demanda para o produto muito grande no País (o quadro comparativo com outros mercados mostra como a nossa tradição culinária portuguesa, ligada ao arroz, tem inibido o consumo de massas).
Mas os fabricantes desse segmento têm tido outras razões para comemorar as vendas em alta e projetar mais crescimento. Primeira: o contínuo aumento dos preços no arroz e feijão, que empurra o consumidor para as gôndolas de macarrão. A segunda: a incorporação de novas tecnologias de produção, que baratearam em até 10% o produto para o consumidor final. E a terceira: a seca no Nordeste, que elevou as compras do governo para cestas básicas.
Por essas e outras, a Selmi resolveu esnobar a crise econômica, que faz tremer a maioria dos empresários brasileiros nesse momento, e investir no mercado. Leia o que o presidente da empresa espera do futuro.
EM BANHO-MARIA
PaísConsumo
Itália15,1
Venezuela12
Chile8
Brasil5,4
(*) Consumo em quilos por habitante/ano (no ano passado, a média brasileira era de 3,36).
Capital de Giro - Apesar do setor de massas ter pela frente um céu de brigadeiro, como o aperto econômico pode comprometer os projetos de expansão?
Norberto de Paula - Não acredito em retração no varejo no nosso setor. Talvez haja alguma dificuldade por parte das empresas que abastecemos, especialmente as redes de supermercados. Temos um produto barato, de certa forma já adaptado à crise.
CG - Qual a receita para um grupo nacional desprezar o assédio internacional, manter o controle da empresa e liderar um mercado dominado por grandes indústrias?
Norberto de Paula - Não tenho dúvidas de que poucos grupos vão permanecer nesse setor. E só vai ficar quem tiver três coisas: escala, eficiência e qualidade. Vendemos um produto com custo unitário baixo, portanto, temos que ter volume. Precisamos enxugar preço para disputar o consumidor com os concorrentes. E temos que ter a fidelidade do consumidor, o que só se consegue com qualidade. Desperdício e gordura são palavras cortadas do nosso vocabulário.
CG - O mercado nacional, com grande potencial de demanda, é suficiente para a expansão da Selmi, ou a empresa tem projetos de exportação?
Norberto de Paula - Temos negócios no Paraguai, com bons resultados. Mas não é essa a nossa direção. Recentemente eu e outros diretores da empresa estivemos no Uruguai, sondando o mercado, mas a uma certa altura nos perguntamos o que a gente estava fazendo ali. Temos em casa um mercado de 150 milhões de consumidores. Por que disputar um de 3 milhões?





