O projeto começou em abril e reúne 17 mulheres: aulas sobre processos de costura, maquinário, segurança no trabalho e gestão do negócio
O projeto começou em abril e reúne 17 mulheres: aulas sobre processos de costura, maquinário, segurança no trabalho e gestão do negócio | Foto: Fotos: Anderson Coelho



Desde criança a agricultora Maria Aparecida Oliveira da Silva, 48, tinha o sonho de aprender a costurar. Suas roupas eram confeccionadas pela madrinha. E vê-la na máquina de costura aguçava o desejo da menina. Mas as condições financeira da família, que vivia na roça, impediu que Silva fizesse um curso para aprender o ofício. Agora, um projeto de capacitação de mão de obra para empresas de confecção aproximou a agricultora de seu sonho.

Ela é uma das alunas do projeto-piloto desenvolvido pela Secretaria do Trabalho, Emprego e Renda de Londrina, em parceria com o Senai e o Sivepar (Sindicato Intermunicipal das Indústrias do Vestuário do Paraná), no Distrito de Lerroville.

Silva, que não tinha intimidade com as máquinas, já está dominando o maquinário e faz planos para, futuramente, abrir um ateliê para atender a comunidade do distrito. "Por enquanto, penso em costurar para a família, mas se tiver a oportunidade quero levar isso adiante e quem sabe costurar para fora", contou a aluna.

O projeto começou em abril com duração de 200 horas/aula. São 17 mulheres na turma. Elas aprendem sobre maquinário e processos de costura. "A intenção é que elas saiam preparadas para lidar com os diferentes tipos de tecidos, maquinários e organização do tempo", explicou Bianca Baggio, instrutora do Senai. As alunas também recebem formação sobre segurança no trabalho e gestão do negócio. O sindicato cedeu o maquinário.

Imagem ilustrativa da imagem CAPACITAÇÃO - Costurando a geração de renda



CARÊNCIA
A proposta do projeto é capacitar a mão de obra local para o mercado de trabalho. Começou por Lerroville em função carência de emprego no distrito. O curso é uma oportunidade, além de qualificar para o mercado, para a geração de renda. "A área (Lerroville) tem uma carência grande de emprego e essa é uma maneira de fomentar a geração de renda", afirmou Elzo Augusto Carreri, secretário do Trabalho, Emprego e Renda.

O projeto terá um módulo de empreendedorismo, com ênfase nas linhas de financiamentos da Fomento Paraná. O Microcrédito Fácil oferece crédito de até R$ 5 mil com taxas de juros que variam de 1,87% a 2,36% ao mês, em 36 vezes e com três meses de carência, para aquisição de maquinário e equipamentos, reforma das instalações, capital de giro e mão de obra. Hoje, com R$ 4 mil é possível comprar um jogo de máquinas básicas (reta e overloque) para dar o pontapé do negócio.

A dona de casa Elenice Maciel Silva, 35, faz planos para ter a própria confecção: "quero investir nisso"
A dona de casa Elenice Maciel Silva, 35, faz planos para ter a própria confecção: "quero investir nisso"



NEGÓCIO PRÓPRIO
A dona de casa Elenice Maciel Silva, 35, já faz planos para ter a própria confecção. Ela produz lingerie, basicamente calcinhas, para vender entre os familiares e amigos, mas com o curso pretende expandir o negócio. "Costurava alguma coisa, mas não tinha a perfeição porque faltava conhecimento. Antes, só sabia fazer uma barra reta, agora estou aprendendo a colocar um zíper, por exemplo. São coisas que não sabia e que estou aprendendo e aperfeiçoando", disse a dona de casa.

A fabricação da lingerie complementa a renda da família que vive da agricultura. "Faço nas horas vagas, mas quero investir nisso. Tudo tem um começo, né?", afirmou. Alderei Valério França, 40, dona de um salão de beleza, também viu no projeto a oportunidade de ampliar os horizontes e opções de mercado. "É a primeira vez que temos um curso desses em Lerroville. Está sendo muito bom e tenho aproveitado ao máximo", comentou França.

Ela estuda a possibilidade de trabalhar com a confecção de lingerie e peças de artesanato. "Também penso em, talvez, abrir uma loja de tecidos aqui", disse. Ela contou que a avó criou os filhos costurando, a mãe "arranha" um pouco na máquina, mas França não sabia nada de fios e linhas. "Sempre tive vontade de costurar as minhas roupas. Quem sabe depois faço um curso de moda. Estou me descobrindo na costura", revelou.

Mesmo que não invista em um negócio próprio, ela afirmou que o curso vai ajudar nas contas de casa. "Hoje, se precisar fazer uma barra de calça tenho que pagar. Saber costurar significa uma boa economia."

DEMANDA
A instrutora do Senai, Bianca Baggio, enfatiza que há demanda para profissionais que sabem lidar com solução de problemas na hora de confeccionar as peças e atender prazos de entrega. "Há necessidade de uma gestão mais profissional desses processos. As confecções de Londrina precisam de mão de obra técnica e qualificada. E esse curso vem no sentido de atender essa demanda", afirmou Baggio. A intenção é implantar o projeto em outras regiões de Londrina, principalmente nas periferias, em que o desemprego é maior.

Segundo o secretário do Trabalho, Emprego e Renda, Elzo Carreri, Lerroville tem potencial para receber fábricas de confecção e fornecer mão de obra qualificada. A secretaria, inclusive, está prospectando a instalação de empresas do setor.
O setor é considerado relevante para o desenvolvimento econômico de Londrina. "O vestuário é uma matriz econômica de interesse para o município, principalmente pela alta geração de empregos e o baixo impacto ambiental", afirmou Atacy de Melo Júnior, diretor de Desenvolvimento da Codel (Instituto de Desenvolvimento de Londrina). O estudo de Sistema inter-regional de insumo produto de Londrina e restante do Paraná e restante do Brasil mostrou que a indústria têxtil e vestuário estão entre os dez maiores geradores de emprego na cidade.

SEGUNDO SETOR QUE MAIS GERA EMPREGOS
Em 12 meses, foram ofertadas 113 vagas para produção em confecção. Este ano, foram 48, mas a Secretaria de Trabalho, Emprego e Renda de Londrina afirma que existe certa dificuldade para o preenchimento das vagas. O setor emprega, segundo dados de março do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), 3.815 pessoas com carteira assinada, sendo 75,2% mulheres.

De acordo com o presidente do Sivepar (Sindicato Intermunicipal das Indústrias do Vestuário do Paraná), Alexandre Graciano de Oliveira, as costureiras estão envelhecendo e não há interesse dos jovens de ingressarem na profissão. "Essa parceria com o Senai e a Secretaria do Trabalho é importante para qualificar pessoas para o setor e fomentar a mão de obra", analisou Oliveira.

A área de abrangência do sindicato compreende 63 municípios do Norte do Estado. São em torno de 650 empresas com cerca de 20 mil trabalhadores formais. "É o setor que mais emprega no Norte Pioneiro, por exemplo", afirmou o presidente.

Segundo ele, com a flexibilização terceirização pela legislação trabalhista, projetos como o de Lerroville podem abrir as portas para profissionais que preferem trabalhar em casa. "O pessoal bem treinado pode pegar serviço de empresas de Londrina ou Apucarana", exemplificou.

RECUPERAÇÃO
A indústria do vestuário é a segunda maior empregadora do Paraná. Responde por 9,3% da geração de emprego na indústria paranaense e tem uma participação de 2,6% no PIB industrial do Estado. O setor sofreu com a crise econômica e encolheu 16% entre 2013 e 2016. Agora, começa a apresentar sinais de recuperação. O boletim do Desempenho da Indústria, divulgado pela Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), mostrou que as vendas industriais do setor subiram 14,92% no primeiro trimestre.

"O vestuário está reagindo e deve continuar neste crescente. Aos poucos, haverá a recuperação de empregos e depois de estabelecimentos. Foram três anos de crise, a recuperação é um processo demorado", afirmou Roberto Zucher, economista da Fiep.

A escalada do dólar deve impactar positivamente o setor. "O produto importado chega mais caro e a indústria nacional reage", explicou Zucher. Segundo ele, umas das vantagens do vestuário paranaense é que o Estado também faz moda. "Além das commodities, como calças jeans, o Estado também faz produtos para grandes grifes internacionais e produz moda", disse. As confecções de Londrina, por exemplo, atendem grandes magazines, mas também estão apostando em marcas próprias, principalmente nas linhas de lingerie, infantil e plus size.

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