Campo perdeu R$ 15 bilhões de 95 a 98
Agência Folha
De São Paulo
Os quatro primeiros anos do governo Fernando Henrique Cardoso custaram bem caro à agropecuária brasileira. Mais exatamente R$ 15,1 bilhões, segundo levantamento realizado pelo economista Fernando Homem de Melo, professor da Faculdade de Administração e Economia (FEA), da Universidade de São Paulo.
Nos anos FHC (95-98), o valor da produção rural (produtos vegetais e animais) alcançou a média de R$ 59,1 bilhões, contra R$ 62,9 bilhões no período 1989-1994. Uma perda de R$ 3,79 bilhões por ano ou R$ 15,1 bilhões em quatro anos. Em moeda de agricultor, a perda equivale a 316.583 tratores (modelo NH 7630-4, de 103 hp), quantidade suficiente para renovar quase 70% da frota agrícola brasileira, de 460 mil unidades.
As perspectivas para este ano também não são favoráveis, embora os preços agrícolas tenham iniciado uma trajetória de alta a partir de agosto. Uma avaliação preliminar da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) indica que o valor da produção agropecuária entre janeiro e julho último registrou queda de R$ 2,5 bilhões em relação ao mesmo período de 1998.
O resultado só não foi pior devido o crescimento da rentabilidade dos produtos da pecuária, principalmente gado de corte. O levantamento de Homem de Melo inclui 19 produtos vegetais (algodão, amendoim, arroz, batata, cacau, café, cana, cebola, feijão, fumo, laranja, mamona, mandioca, milho, sisal, soja, tomate, trigo e uva) e quatro animais (boi, suíno, frango e leite). Os valores foram corrigidos pelo IGP.
A queda da renda agrícola foi brutal. Na comparação dos dois períodos, os preços agrícolas caíram 19,4%. Na década, a redução chegou a 32,5%, diz o economista. Para Homem de Melo, a crise agrícola favoreceu o consumidor, que pagou menos pela comida nos primeiros anos do Plano Real, e, em certa medida, também a agroindústria, uma vez que os preços dos alimentos processados caíram bem menos do que os de produtos in natura.
A agricultura sustentou o Real. O argumento do governo de que a crise agrícola é uma crise de preços, provocada pela queda das cotações internacionais, não é verdadeiro. Entre 94 e 97, o mercado internacional estava em alta e isso acabou salvando a lavoura, diz o economista.
A perda de renda de agricultores e pecuaristas nos anos FHC, segundo ele, foi consequência da valorização da taxa de câmbio, das elevadas taxas de juros reais, das excessivas reduções de tarifas de importação, das compras externas financiadas e, mais recentemente, da recessão econômica.
Embora necessária, a abertura comercial foi realizada de maneira equivocada. O Brasil reduziu drasticamente suas tarifas de importação, sem levar em conta os subsídios agrícolas praticados pelos países industrializados. A concorrência foi desleal, diz Homem de Melo.
Como resultado, as importações de produtos do agribusiness, que no início da década mantinham-se na faixa de US$ 2,5 bilhões por ano, saltaram para US$ 4,5 bilhões em 94, e dispararam a partir daí, atingindo a marca de US$ 6,4 bilhões em 97. Os produtores mais prejudicados foram os de algodão, arroz, cebola e trigo. No caso do algodão, que teve sua tarifa de importação zerada, a renda dos agricultores caiu em média 41,6% no período 95-98, na comparação com 1989-94.
Outro indicador da crise do setor é a forte queda nas vendas de máquinas agrícolas. Na década de 80, as indústrias comercializaram em média 34.800 unidades por ano, número que caiu para 21.200 no período 90-94, e despencou a partir de 95 para 16.300.
Para a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a perda de renda dos produtores nos anos FHC foi ainda maior: R$ 24,3 bilhões, se comparado o valor da produção agrícola de 1994 com a média do período 95-98. Os altos juros impediram a formação de estoques, e os preços despencaram, diz Getúlio Pernambuco, economista da CNA.
Segundo ele, o governo reduziu a compra de alimentos (estoques reguladores), devido a problemas orçamentários. A política de garantia de preços mínimos praticamente desapareceu, na opinião do economista.
Luiz Hafers, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), diz que a crise agrícola se agravou porque o governo FHC não se emocionou com os problemas do setor. Há um ranço intelectual contra a agricultura no governo. Também as lideranças rurais, segundo Hafers, falharam na marcha dos agricultores a Brasília, em agosto. Nós nos concentramos na questão do não-pagamento da dívida. Uma atitude politicamente negativa. Ficamos com a pecha de caloteiro, quando o grande problema é o empobrecimento do agricultor.





