Agência Estado
De São Paulo
O Movimento União Brasil Caminhoneiros, que reúne os principais sindicatos regionais da categoria, organizou, durante todo o dia de ontem, protesto contra o alto preço do pedágio, a falta de segurança e má conservação das estradas do País. Os manifestantes que participaram do movimento denominado ‘‘Uma questão de sobrevivência’’, bloquearam as principais rodovias em 14 Estados, como Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio e São Paulo, entre outros.
Eles reivindicam ainda a revisão de multas aplicadas após a entrada em vigor do novo Código de Trânsito. Segundo o presidente da entidade, Nélio Botelho, pelo menos 45% do total de 1,5 milhão de caminhoneiros aderiram à greve, por tempo indeterminado.
Botelho explicou que caso o governo federal não atenda às reivindicações do movimento, poderá haver desabastecimento de alimentos e combustíveis, em 72 horas, nas principais capitais brasileiras. ‘‘O Rio será o mais afetado, pois a maioria dos alimentos consumidos pelos cariocas vêm de outras regiões.’’
O ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, disse que está aberto ao diálogo e garantiu que o governo não vai tolerar ‘‘passivamente nenhuma ação irresponsável’’ por parte da direção do movimento. Ele não adiantou, porém, que tipo de ação poderá ser tomada pelo governo.
O presidente da União Brasil Caminhoneiros disse que o movimento é pacífico. Botelho informou que já esteve duas vezes, em 98, com o ministro para discutir o assunto. ‘‘Ele disse que vai dialogar, mas é pura demagogia.’’
Segundo Padilha, que participou, ontem de manhã, da cerimônia de lançamento das obras de revitalização do Porto do Rio, os caminhoneiros têm razão, ‘‘em princípio’’, ao reivindicar obras de conservação e sinalização das rodovias federais. Mas disse que a crise da Rússia, em 98, atrasou os investimentos, que só foram retomados em maio. Até agora, adiantou o ministro, foram liberados R$ 170 milhões dos R$ 300 milhões previstos no orçamento de 1999 para obras de conservação e sinalização de rodovias.
A greve começou por volta das 10 horas, quando cerca de 50 caminhões pararam no acostamento da Rodovia Presidente Dutra, na frente da Refinaria Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Mas o protesto estendeu-se por várias regiões do País. Em Volta Redonda, na região do Médio Paraíba, uma fila de caminhões estendia-se por cerca de 10 quilômetros de acostamento. Houve início de tumulto por parte de grevistas, que chegaram a apedrejar alguns caminhões cujos motoristas não aderiram ao movimento. Os demais veículos transitavam normalmente.
Em circular dirigida a seus associados, a Associação Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas (NTC) declarou-se contrária à greve iniciada ontem. No documento, o presidente da entidade, Romeu Nerci Luft, considerou ‘‘justas’’ as reivindicações, mas repudiou as paralisações e orientou as empresas associadas a evitar a participação de seus veículos nas manifestações. A entidade ainda não avaliou o impacto econômico da paralisação.
‘‘A NTC, por princípio, é contrária a todo tipo de protesto que envolva paralisações e a consequente possibilidade, mesmo que remota, de interferência no tráfego de veículos, com interdição total ou parcial de vias públicas’’, sustenta a circular. No documento, a NTC ressalta que o setor passa por dificuldades e considera especialmente justas as reivindicações em relação ao preço dos pedágios e à situação das rodovias. Mas entende que as paralisações ‘‘fatalmente levam a tumultos e a intolerância’’. O setor de transporte rodoviário de cargas no País emprega cerca de 3,5 milhões de pessoas e fatura US$ 25 bilhões por ano, o equivalente a 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
Ontem à noite, o Ministério dos Transportes divulgou nota em que atribui aos cortes nas despesas exigido pelo ajuste fiscal a falta de recursos para a melhoria das estradas brasileiras e se mostrou disposto a implementar todas as reivindicações dos caminhoneiros, desde que tenham cobertura orçamentária.
O ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, se coloca à disposição para ser o interlocutor dos caminhoneiros para negociar as reivindicações da categoria junto ao governo federal, mesmo em outras áreas.

O QUE ELES PEDEM
•Redução na taxa de pedágio
•Melhorias de segurança e circulação das estradas
•Abono das multas aplicadas depois da entrada em vigor do Código Nacional de Trânsito

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