A cotação do dólar chegou a aumentar 19,6% em menos de 90 dias, o que pressiona a inflação do País em um momento de consumo já desaquecido. Mais do que a alta da moeda, a alta variação em tão pouco tempo faz com que empresários tenham de se decidir entre repassar os custos ao preço dos produtos ou absorver as perdas, para não espantar de vez os clientes do mercado. Mesmo porque não são apenas bens estrangeiros prontos e mais elitizados, como vinho ou azeite, que encarecem, mas até o pão francês, cuja base é o trigo importado.
A pressão sobre preços é geral. Professora de economia e especialista em comércio exterior da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Fátima Campos afirma que 54,6% de todas as importações no País entre 2009 e 2012 foram de bens intermediários, que entram na composição de outros itens. Ela lembra também que o custo de insumos não aumenta o preço final de uma hora para a outra, como ocorre na compra de um produto estrangeiro pronto, porque a aquisição costuma ser feita antecipadamente e com estoque para um longo período. Mas deve aumentar, de um jeito ou de outro.
Para os empresários, o problema é que a população, estimulada nos últimos anos pelo governo a ir às compras para garantir o crescimento da economia, pisou no freio quando sentiu a inflação causada justamente pela demanda, diz Fátima. Ao mesmo tempo, o Banco Central (BC) tem reajustado a taxa básica de juros, a Selic, para diminuir a oferta de crédito, o consumo e a alta nos preços. Repassar custos, nesse cenário, pode não ser uma boa pedida. "Se o mercado estivesse aquecido, seria mais fácil, mas como não está, o comerciante terá de absorver parte do custo e reduzir lucros", prevê a economista.
Para o presidente do Sindicato dos Economistas (Sindecom) de Londrina, Ronaldo Antunes, é preciso entender que toda demanda se ajusta. "Se os importados seguraram os preços em baixa anteriormente, agora é a vez dos produtos nacionais. A cotação baliza um novo momento da economia."

Na mesa de todos
O Brasil consome 10 milhões de toneladas de trigo ao ano, mas produz a metade. O restante vem de países como Argentina e Paraguai, sempre negociado em dólar, conforme dados da Associação Brasileira das Indústrias de Massas Alimentícias e Pão e Bolo Industrializados (Abima). Do total, 2,5 milhões de toneladas se transformam em ração e 7,5 milhões em alimentos, divididos em 50% para pães de padarias e 50% para artigos industrializados. "No macarrão, o custo da farinha de trigo chega a 60% ou 70% ", calcula o presidente da Abima, Cláudio Zanão.
Ele conta que a pressão sobre o preço de pães e massa costuma ser feita pelo câmbio e pela safra do trigo, cuja maior parte vem da região Sul. Como geadas causaram perdas estimadas em 700 mil das 2,7 milhões de toneladas esperadas no Paraná, o peso é ainda maior. "A indústria tenta repassar os custos um pouco a cada mês, então o consumidor vai sentir", prevê. No caso de empresas pequenas, que têm estoques menores, Zanão conta que é preciso repassar a pressão cambial ao cliente ou fechar as portas.
É por isso que a professora de economia Fátima Campos acredita que são as famílias de menor renda que sofrem mais com a alta do dólar. "Elas não conseguem variar muito o consumo, que é imediato e de produtos básicos", declara, ao lembrar que pessoas que bebem vinho importado, por exemplo, podem optar pelo produto nacional para respeitar o orçamento.

Petrobras
Se 54,6% das importações nacionais eram insumos, quase um terço foram combustíveis, segundo Fátima. A Petrobras é hoje a responsável pelo fornecimento do produto, que entra na composição de todos os outros bens, já que o transporte de cargas no País é feito majoritariamente pelas estradas. A alta do dólar somente não aparece nos postos porque o governo determina que a estatal congele os preços. "Parece uma coisa boa porque o preço não sobe e ajuda a economia, mas causa prejuízo à empresa e insegurança de que o valor da gasolina pode subir num momento de aperto", conclui o presidente do Sindecom, Ronaldo Antunes.

Imagem ilustrativa da imagem Câmbio pressiona inflação e comerciantes de importados
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