Câmbio prejudica lojas de R$ 1,99
O dólar à beira dos R$ 4 virou um tormento para as 17 mil lojas de R$ 1,99 do País, febre do consumo popular no tempo do real forte. Para sobreviver à explosão dos custos e à queda do poder aquisitivo do brasileiro de baixa renda, o setor tenta vencer a crise com criatividade na seleção das mercadorias e em novos nichos, como a venda de alimentos, balas e chocolates.
O Dia das Crianças (12 de outubro) revela as estratégias desses pequenos comerciantes e seus fornecedores, que já movimentam cerca de R$ 4 bilhões por ano. Um exemplo disso é a redução pela metade do número de páginas de livros infantis que começam a chegar às lojas. O plástico reciclado, que é mais barato, está sendo usado para fabricar helicópteros de brinquedo. Outro método adotado é a utilização de caixas usadas de papelão e a substituição de mercadorias importadas por similares nacionais.
''A marca de R$ 1,99 vai continuar, porque tem um apelo de marketing muito forte. Hoje até o Mc Donald's adota esse padrão de preço. Virou um nicho de mercado. Há grandes lojas de departamento criando seções para esses produtos'', afirma o argentino Eduardo Todres, 45, responsável por uma feira do setor.
A escolha do fornecedor é o principal desafio de um dono de uma loja de R$ 1,99. Só a compra do produto no atacado por um preço menor permitirá ao comerciante vendê-lo barato ao consumidor.
Em Londrina, a Plastisul, fabricante de artefatos plásticos, produzia helicópteros de brinquedos de 50 centímetros de comprimento com polipropileno (matéria-prima do plástico).
Com a disparada do dólar e do barril de petróleo, os derivados, como o polipropileno, ficaram mais caros. A saída da empresa foi procurar uma alternativa mais barata, como uma resina reciclada trazida do pólo petroquímico da Bahia.
Já a editora paulista Galex resolveu eliminar as páginas de rosto, introduções e prefácios das adaptações dos livros da literatura clássica infantil como ''Chapeuzinho Vermelho'', ''Os Três Porquinhos'' e ''A Bela Adormecida''. Com isso, o número de páginas de uma publicação chegou a ser reduzido de 16 para 8 páginas.
''Como a tiragem é alta (240 mil unidades), conseguimos reduzir os custos. A criança vira a capa do livro e já entra na história'', diz Todres, dona da editora.
Com a alta do dólar, as principais indústrias de papel e celulose do país estão preferindo ganhar dinheiro com as exportações do produto. ''Um dos efeitos para o mercado brasileiro é que está faltando caixa de papelão. Estamos apelando para o material reciclado, que é mais barato'', afirma Todres.
Apesar do esforço de espremer os custos, o setor de R$ 1,99 teme os efeitos da disparada da inflação e do agravamento da crise financeira.
''Em oito anos, o país criou uma cultura de estabilidade dos preços. No fundo, sabemos que isso agora acabou.''(Agência Folha)





