Câmbio louco: dólar dispara e some
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sábado, 08 de dezembro de 2001
Das agências<Br>De São Paulo e Buenos Aires 
Comprar dólares na Argentina tornou-se ontem quase impossível. Os bancos não vendiam, as casas de câmbio não tinham a moeda. Nos poucos negócios realizados, o valor do dólar explodiu. Em Buenos Aires, pagava-se pelo menos 1,15 peso por US$ 1, mas a cotação chegou a bater em 1,25 peso em algumas casas de câmbio. Na prática, os argentinos desvalorizaram a sua moeda. Há uma semana, era possível comprar dólar por 1,005 peso. Em Córdoba, Província vizinha de Buenos Aires, doleiros ofereciam dólares a 1,40 peso. Nesse extremo, a valorização do dólar em uma semana chega a 39%.
''Quase não há negócios fechados a esse preço. Mas ninguém vai se dispor a vender por menos, não sabemos qual será a próxima idéia engenhosa do Cavallo'', diz Jorge Casaldere, gerente de uma casa de câmbio. O diretor de câmbio de um banco estrangeiro que opera na Argentina afirma que a ordem hoje é manter dólares estocados, ''pelo menos até o próximo discurso de Cavallo''. ''Os bancos estão na defensiva, com tantas mudanças seguidas nas regras no sistema financeiro. Vão sentar sobre seus dólares até as coisas mudarem'', afirmou o diretor de câmbio.
Para encontrar a moeda norte-americana à venda, é necessário recorrer aos doleiros, que começam a voltar com força a operar na Argentina. ''A conversibilidade só existe no discurso do governo, está enterrada. Como podem ainda falar em conversibilidade com o valor do dólar superando o do peso em 30%, 40%?'', diz Leonardo Chialva, analista da Delphos Investment.
O que tende a alimentar o mercado paralelo são os inúmeros contratos e dívidas que os argentinos se habituaram a manter em dólares desde que Cavallo, então ministro da Economia de Carlos Menem (1989-99), lançou o Plano de Conversibilidade, que fixou o valor do peso em um dólar. Com os vencimentos se acumulando, os argentinos acabam se vendo obrigados a pagar as altas taxas para terem dólares.
Para tentar dar algum respaldo ao discurso do governo De la Rúa, de que o peso continua conversível, no Banco Nación (o principal banco público do país) a cotação do peso em relação ao dólar continua em 1 por 1. O difícil é conseguir comprar os dólares anunciados. Os clientes do banco teriam preferência, mas mesmo eles conseguem trocar no máximo US$ 50. Há filas grandes nas casas de câmbio. Mas, em muitas delas, os letreiros luminosos não mostram a cotação de venda.
Com a escassez da divisa, as cotações para compra também sobem. Os bancos já pagam US$ 1,01 para comprarem dólares de quem estiver disposto a fazer negócio. Antes de viajar para os EUA na quinta, Cavallo afirmou: ''A dolarização só depende do povo argentino''.
No Brasil, o dólar comercial fechou a semana no preço mais baixo dos últimos cinco meses, vendido a R$ 2,3930, em queda de 1,12%. As declarações no meio da tarde do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, de que ''o câmbio (real) estava muito depreciado e talvez ainda esteja'' reforçaram o otimismo do mercado. O bom humor já predominava nas mesas de negociação por causa do fluxo de entrada positivo e da informação de que houve em novembro um volume de investimentos estrangeiros direto no País superior a US$ 2 bilhões.
Antes da fala de Fraga, o dólar comercial operava em queda de 0,66%, vendido a R$ 2,4040. Logo em seguida, a moeda americana acelerou a baixa para encerrar no menor preço desde 3 de julho deste ano, quando fechou cotada a R$ 2,3520. O resultado de ontem acentuou a perda do dólar frente o real neste mês para 4,13%. Mas, no ano, a valorização ainda é de 22,66%.


