Câmbio está sem teto, dizem analistas
O dólar deve continuar a subir até o final do ano e não há muito o que o Banco Central possa fazer, avaliam economistas. Já o presidente do BC, Armínio Fraga, torce para a turbulência no mercado internacional passar, o que, em sua opinião, permitiria que a taxa de câmbio recuasse no médio e longo prazo.
''Nós esperamos que parte da depreciação do real se reverta quando essa turbulência passar'', afirmou Fraga na manhã de ontem, durante uma audiência realizada no Congresso. (leia ao lado)
Para o economista Sérgio Werlang, que foi colega de Fraga no Banco Central (ex-diretor de Política Econômica da instituição), se a causa da alta do câmbio for falta de liquidez (pouca oferta da moeda norte-americana), o BC deveria ''injetar'' mais dólares no mercado.
No entanto, ressalta Werlang, se o mercado estiver tentando encontrar novo patamar para a taxa de câmbio, ''não há o que o BC possa fazer''.
''A economia mundial crescerá menos do que o esperado neste ano. Devido às turbulências no mercado internacional, nossos títulos, que representam dívida, tanto públicos quanto privados'' serão menos procurados. Também receberemos menos investimentos diretos. Tudo isso significa menos dólares na economia, o que pressiona a taxa de câmbio'', disse Werlang.
Fraga listou cinco choques enfrentados pela economia brasileira para justificar a alta do dólar e da inflação: a crise na Argentina, a proximidade da eleição presidencial, o desaquecimento da economia mundial, a crise de energia e os ataques terroristas ao World Trade Center e ao Pentágono nos Estados Unidos na terça-feira da semana passada. Depois das declarações de Fraga, o dólar continuou a subir e fechou na cotação recorde de R$ 2,76.
No Banco Central, ninguém quis comentar a disparada da moeda. No final da tarde, o diretor de Política Econômica, Ilan Goldfajn, concedeu entrevista para explicar mudanças no cálculo do déficit público que serão promovidas pelo BC.
Ao final da entrevista, Goldfajn se recusou a falar sobre a alta do dólar. Os assessores de imprensa do Banco Central tentavam instruir os jornalistas presentes a não fazer perguntas relacionadas ao comportamento do mercado de câmbio.
Para o economista Roberto Padovani, da consultoria Tendências, o governo passa por período de desconfiança em relação à política monetária. ''O BC não está errado em não elevar os juros, pois isso agravaria o desaquecimento econômico. Mas manter a taxa de juros inalterada abre espaço para o dólar subir'', diz Padovani.
Antes dos atentados aos Estados Unidos, Padovani projetava o dólar a R$ 2,60 no final do ano. ''Muita gente no mercado trabalha com o dólar a R$ 2,90 em dezembro. É possível que chegue a esse nível'', disse o economista, que ainda não concluiu sua nova previsão para o câmbio.





