São Paulo - Nos últimos cinco meses, o câmbio deixou de acompanhar de perto o comportamento do risco país. Enquanto o risco recuou 54,19% desde o pico atingido em 27 de setembro, de 2.443 para 1.119 pontos, o dólar caiu apenas 12,5% do recorde de R$ 4, definido em 10 de outubro, para os atuais R$ 3,497. Para alguns analistas, a taxa de câmbio tem caído menos do que se esperava por causa da alta da inflação, que já estaria corroendo parte da desvalorização real ocorrida em 2002, enquanto outros acreditam que a necessidade de o País obter um superávit comercial significativo, para garantir o ajuste das contas externas, impede uma queda mais acentuada da moeda.

Para o economista-chefe do CS First Boston (CSFB), Rodrigo Azevedo, é necessário olhar com reserva para a correlação entre o risco país e a taxa de câmbio. Azevedo ressalta que, quando se analisa o câmbio, a variável mais relevante é a taxa real, ou seja, a que desconta a inflação. Como os preços subiram com força nos últimos meses e a inflação estimada pelos analistas para os próximos 12 meses é elevada, há um ajuste na taxa real de câmbio. Com isso, ainda que o dólar tenha subido muito em 2002, a melhora da percepção de risco do País leva a uma queda da taxa nominal menos intensa do que se imaginava. Para ele, ainda há outro fator que limita o recuo do dólar: os vencimentos significativos de títulos cambiais nos próximos meses - US$ 17,85 bilhões daqui até julho. Azevedo lembra que o BC já manifestou o desejo de reduzir a parcela de papéis cambiais na dívida pública, o que também segura uma queda mais forte das cotações.

O BNP Paribas fez um modelo que mostra qual deveria ser a taxa de câmbio a partir do preço do C-Bond e das expectativas de inflação coletadas pelo BC. O diretor-vice-presidente do banco, Carlos Calabresi, diz que há uma forte correlação entre esses ativos. Com o C-Bond na casa de 77% do valor de face e expectativas de 12,33% para 2003, o dólar deveria estar em R$ 3,32. Calabresi entende, no entanto, que um dólar muito abaixo de R$ 3,50 pode prejudicar a balança comercial, o que explicaria em parte por que o câmbio tem resistido. Para ele, é possível que com o dólar na casa de R$ 3,50 o déficit em contas correntes fique próximo de zero este ano - em 2002, ficou em US$ 7,8 bilhões.

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