Câmara diz que árabes podem diminuir importações
Já a Federação das Indústrias do Paraná minimiza o impacto da decisão de Bolsonaro de instalar escritório em Jerusalém
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de abril de 2019
Já a Federação das Indústrias do Paraná minimiza o impacto da decisão de Bolsonaro de instalar escritório em Jerusalém
Nelson Bortolin - Grupo Folha 

A Câmara de Comércio Árabe Brasileira diz que a decisão do presidente Jair Bolonaro (PSL) de instalar um escritório em Jerusalém deve comprometer em médio prazo as relações comerciais entre Brasil e os países árabes. No sábado (30), ao chegar a Israel, o presidente brasileiro anunciou a medida. O compromisso de campanha de Bolsonaro era de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, o que irritou a comunidade árabe. Ele recuou e decidiu por um meio-termo, não agradando nem árabes nem israelenses.
“Os reflexos podem acontecer. Nós tínhamos um ruído (mudança da embaixada) e a decisão do governo não acabou com ele”, diz o presidente da Câmara, Rubens Hannun. Ele alega que os produtos brasileiros sempre tiveram a preferência dos árabes. Mas que agora, aqueles países podem voltar os olhos para a concorrência. “As empresas árabes bem como os consumidores sempre preferiram os produtos brasileiros. Agora está aberta a porta para a concorrência”, afirma.
Num prazo entre 3 e 5 anos, o presidente da Câmara acredita que países com Estados Unidos, Turquia, França e Austrália podem tomar parte das compras dos árabes feitas no Brasil.
Segundo a entidade, dos US$ 230 bilhões exportados pelo Brasil em 2018, US$ 11 bilhões, cerca de 5%, foram para os árabes. Desse total, US$ 2 bilhões foram em frango, sendo que o Paraná foi responsável por US$ 735 milhões (36,7%) das vendas dessa proteína. Austrália, Turquia e França, de acordo com Hannun, seriam os principais concorrentes do frango paranaense.
Antes da aproximação de Bolsonaro com o governo de Israel, a câmara estimava que as exportações brasileiras para os países árabes quase que dobraria até 2022, atingindo US$ 20 bilhões. “Além disso, existia a possibilidade de o Brasil receber investimento na área de infraestrutura e logística dos fundos soberanos da Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait e Catar”, conta o presidente.
NEM TANTO
A Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) não acredita em prejuízos para a economia brasileira com a decisão de Bolsonaro. E minimiza a importância das relações comerciais com os árabes. “Essa demanda (dos árabes) parece ser expressiva, mas se for colocada na ponta do lápis, se olharmos o conjunto da produção brasileira de carne, é relativamente pequena”, diz o gerente executivo de Assuntos Internacionais da Federação, Reinaldo Tockus.
Ele afirma não acreditar em retaliação dos árabes e acha improvável que outros fornecedores venham a tomar espaço nas importações daqueles países. Para o gerente, os ganhos que o País terá por estar mais próximo de Israel compensam qualquer risco. “É importantíssima (a aproximação) no sentido da tecnologia. Todas as grandes empresas de tecnologia do mundo tem sede de desenvolvimento em Israel”, ressalta.
Os israelenses, na visão dele, podem colaborar com o Brasil no desenvolvimento e transferência de tecnologia, capacitação de pessoal e melhora no processo de gestão. “A longo prazo, a política externa (de Bolsonaro) mais beneficia que atrapalha”, declara.
A coordenadora do curso de relações internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) de Porto Alegre, Ana Regina Falkembach, concorda em parte com o representante da Fiep. “A decisão de instalar um escritório em Jerusalém foi uma boa saída encontrada pelo governo. E terá pouco impacto nas relações comerciais brasileiras”, alega.
Mas, para ela, as exportações brasileiras para os países árabes são “muito importante”. Apesar de lembrar que a Arábia Saudita já tenha suspendido algumas importações de frango em janeiro deste ano, ela não acredita em novas retaliações. Falkembach diz que preocupante será se o Brasil insistir na mudança da embaixada (Bolsonaro ainda não descartou essa medida). “Se progredir para isso, haverá um impacto bem importante”, afirma.
Jerusalém é disputada como capital por judeus e palestinos – povo árabe que habitava a região quando Israel foi criado, após a segunda guerra mundial. De fato, a capital israelense hoje é Tel Aviv, onde se encontram praticamente todas as embaixadas. Poucas nações têm suas representações oficiais em Jerusalém. Das maiores, somente os Estados Unidos.


