A inadimplência está gerando uma legião de cobradores em Londrina, muitos em situação irregular no mercado. Picaretas. Da mesma forma, porém, que aumenta o número de empresas cobradoras, aumentam as dificuldades de recebimento dos créditos. Waldomiro Petriceli, 18 anos na área, fala que o lucro da operação vem caindo muito. ‘‘A cobrança não é mais lucrativa’’, afirma, colocando o real como divisor das águas. ‘‘O volume de serviço é maior, mas o rendimento está em queda; é cada vez mais difícil receber’’.
Petriceli tem a sua versão. Acha que a inadimplência passou a ser notícia nacional depois que o brasileiro, ignorando o poder limitado da moeda, ‘‘entrou com tudo’’ no mercado consumidor. O real dá a impressão de que tudo é barato, diz ele. ‘‘Como nem tudo é mais barato, e o dinheiro foi ficando escasso, e o desemprego foi aumentando, muita gente quebrou a cara’’. Até hoje é assim, segundo ele. As pessoas comprometem demais o orçamento e a certa altura descobrem que não têm mais dinheiro.
Ele calcula por alto que 50% dos inadimplentes honram os seus compromissos. O restante, além de não pagar, ou despreza o cobrador ou parte para a ignorância. ‘‘Encontramos todo tipo de devedor, dos mais calmos, conscientes, aos mais estúpidos e ignorantes; não é fácil’’. Nesse universo ele inclui muita gente decente, desempregada. ‘‘É importante frisar que, da parte ruim, nem todos são caloteiros; muitos desempregados gostariam de saldar suas dívidas e não têm como, com que dinheiro?’’
O curioso é que o valor das dívidas é bem inferior à média registrada antes do Plano Real, pelo menos na empresa de Waldomiro Petriceli. Ele lembra que cobranças equivalentes a R$ 1.500,00 eram procedimentos de rotina, hoje não passam da faixa de R$ 30,00 a R$ 300,00. ‘‘Se antes recebíamos R$ 20 mil por mês dos inadimplentes, agora não chegamos a R$ 10 mil’’ - para um volume médio mensal de 1.000 cobranças. ‘‘Pior que enfrentar caloteiros ou trombar com cheques frios, roubados, é reconhecer que quem ganha R$ 120,00 por mês não tem mesmo dinheiro, ou ouvir alguém dizer: esperem eu arrumar um emprego, aí eu pago, sem problemas’’.
Petriceli ganha comissão de quem não paga as grandes lojas de crediário. Ele fala em negociações envolvendo 5% do valor da prestação em atraso ou até 20% dos juros pagos à loja. ‘‘Muitos renegociam a dívida, ou dá o que tem’’, comenta, dizendo que diante de tudo, está achando que é hora de reavaliar. ‘‘Quinze dias atrás, fechei a filial em Cornélio Procópio, porque não dava mais para sustentar a estrutura’’, referência aos empregados, encargos e despesas de praxe. Petriceli tem seis funcionários em Londrina - dois em regime interno e quatro na rua, atrás dos devedores.
A funcionária Maria de Fátima Rocha ‘‘segura o rojão’’ na empresa. Ela cobra por telefone, envia correspondência aos devedores, recebe. ‘‘É uma loucura; tem gente que tenta fazer acordo, outros xingam, até assustam’’, resume, falando que em cinco anos de trabalho na área a fase mais difícil - ‘‘em todos os sentidos’’ - é a atual. ‘‘Foi bom até maio de 95’’, emenda. Maria de Fátima também culpa o real.

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