Calçado sintético brasileiro conquista exterior
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sábado, 12 de abril de 2008
Vera Dantas<br>Agência Estado 
São Paulo O calçado sintético nacional com grife e apelo de moda, que desfila nas passarelas internacionais, começa a roubar espaço do produto de couro nas exportações brasileiras. O sintético ajudou até na recuperação das vendas da indústria para o exterior no início deste ano.
Do total de 39 milhões de pares de calçados vendidos nos dois primeiros meses de 2008 no mercado externo, 22,4 milhões foram sintéticos. Já as vendas de sapatos de couro ficaram em 13,5 milhões de pares. O restante foi de materiais diversos. As exportações cresceram no bimestre 12,7% em relação a igual período em 2007.
A presença do sintético é cada vez mais valorizada no mundo. O produto evoluiu muito e a moda brasileira em sandálias e chinelos de praia de tiras, todos sintéticos, é muito bem recebida lá fora, diz o consultor da Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), Ênio Klein. Ele observa também que, além de os sintéticos ganharem novos mercados, o couro perdeu muito com a redução nos últimos anos das vendas para os Estados Unidos.
O mercado americano, que representava 45% das exportações no primeiro bimestre de 2006, hoje representa 27,7%. Nos anos 70, a impressão da frase all leather-made (todo feito em couro) nos sapatos brasileiros vendidos aos Estados Unidos era o destaque nacional. Na época, representávamos a China para a Itália, que também exportava sapatos de couro, mas a preços elevados, enquanto o nosso produto custava pouco mais de US$ 4, lembra Klein. Ele também pondera que hoje a indústria do couro dá preferência a outros mercados. O couro vai mais para estofamentos no setor automotivo, para o mercado de móveis, de decoração e de moda, do que para fábricas de calçados.
Na comparação em valores, as exportações de produtos de couro alcançam um resultado superior, porque o preço do produto é mais elevado. Os fabricantes brasileiros faturaram no primeiro bimestre do ano US$ 259,9 milhões com calçados de couro. Já o resultado das exportações de sintéticos no mesmo período foi de US$ 81 milhões. Mas foram os reajustes de preços dos sintéticos, com lançamentos de maior valor, que puxaram as vendas nos dois primeiros meses do ano. O faturamento das exportações cresceu 6% em relação a igual período do ano passado.
Os produtores de sintéticos conseguem crescer pela diversificação de produtos, redução de custos e ganhos de escala. Com isso têm fôlego para ampliar a exportação, diz o presidente da Abicalçados, Milton Cardoso.
A Beira Rio, voltada para o mercado de sintéticos, para enfrentar a desvalorização do dólar frente ao real adaptou a fábrica. Deixamos de produzir 5 mil pares de US$ 1 para fazer 4 mil pares de US$ 10, exemplifica o diretor de exportação da empresa, Rodrigo Miceli. Ele conta que há quatro anos a direção da empresa percebeu que o grande patrimônio da Beira Rio não era seu potencial industrial, mas a força da marca.
Investimos muito na modernização e na marca Vizzano, diz. A empresa também exporta as marcas Molecca e Beira Rio, mas em menor quantidade. Para associar a Vizzano à moda, a companhia tem uma parceria com a modelo e apresentadora Ana Hickmann, que assina uma linha de calçados .
A estratégia de fidelização permitiu que a empresa alcançasse em 2007 ante 2006 um crescimento nas exportações de 26% em volume e de 38% em faturamento. Em relação aos últimos dois anos, nosso preço em dólar dobrou, mas buscamos diferenciais, como parcerias na Itália, para lançar produtos de maior valor agregado no mercado externo, diz Miceli.
Para a Picadilly, a opção de diversificar e investir em novos materiais misturados ao sintético está abrindo caminho para o crescimento nas exportações. A mudança permitiu reajustar preços entre 15% e 25%. Investimos também em coleções jovens e no primeiro trimestre do ano as vendas foram 10% superiores às do mesmo período em 2007, diz a gerente de exportação da marca, Micheline Grings Twigger. Dos 8 milhões de pares produzidos por ano, 30% são exportados.
Até no calçado infantil o sintético tem avançado. A Klin, por exemplo, que exporta 20% da produção de 20 mil pares/dia, já vende seus produtos para América Latina, Europa e Oriente Médio e começa a apresentar suas coleções para países da África, Índia e Austrália.
É do Ceará que sai boa parte das Melissas, Riders, Ipanemas e outros calçados sintéticos fabricados pela Grendene que estão caindo no gosto mundial. Ela é a maior empresa calçadista brasileira, com capacidade de produção de 176 milhões de pares/ano. As exportações começaram em 1979, com as sandálias Melissa. Hoje, a empresa vende para 85 países e responde por cerca de 20% das exportações brasileiras de calçados.
Uma das estratégias da Grendene para agradar no mercado internacional foi associar produtos da marca a personalidades, como a atriz Sharon Stone e a modelo Cláudia Schiffer, e a brasileiros famosos, como a modelo Gisele Bündchen. (Colaborou Carmen Pompeu)


