Caixa revende imóveis de inadimplentes
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quarta-feira, 12 de março de 1997
Luciane Tonon 
Luiz OliveiraEspera compensadaNovos proprietários assinam contrato e adquirem casas tomadas pela Caixa Econômica de mutuários inadimplentes. A maioria passou dias na fila em frente ao banco para garantir a compraCORNÉLIO PROCÓPIO - Depois de 170 horas na fila de espera, os pretendentes a um imóvel refinanciado pela Caixa Econômica Federal de Cornélio Procópio, conseguiram ontem a sonhada casa própria. Durante a distribuição, houve tranquilidade e organização. Cerca de 90 pessoas aguardavam na fila para conseguir os 65 imóveis colocados à venda.
Valeu a pena esperar. Eu pensei que nunca na minha vida teria uma casa própria, disse a mutuária Emília Barbineli da Silva, que foi a quarta pessoa a ser atendida. Ela assumiu uma prestação de R$ 120,00 por mês, comprovando a renda de R$ 480,00 mensais.
A distribuição dos imóveis foi por ordem de chegada, por isso grande parte dos pretendentes estava acampada desde quinta-feira em frente à agência. Houve aqueles que mesmo tendo chegado depois das 65 vagas completas, não perderam a esperança de conseguir seu imóvel. Eu sei que muitas pessoas não vão comprovar renda suficiente, por isso tenho fé de que vou conseguir, disse o aposentado, Antônio Lázaro de Jesus que tinha a senha de número 88.
Mas os atuais moradores dos imóveis colocados à venda - após serem tomados pelo banco por inadimplência - ficaram descontentes. Ontem pela manhã eles fizeram um protesto no Conjunto Vitor Dantas e ameaçaram demolir algumas casas se entrasse outro comprador. Nossas prestações estão atrasados pelo alto custo das prestações, que já tentamos renegociar e a Caixa não quis acordo, afirmou a moradora Fátima Ferreira. A prestação da casa gira em torno de R$ 300,00. Antes deixar de pagar a casa do que deixar meus filhos passarem fome, acrescentou.
O conjunto Vitor Dantas tem 500 casas. A ex-presidente da Associação dos moradores, Dirce Lopes Paiva, explica que muitas pessoas que estavam na fila pelo imóvel já foram moradores do bairro, venderam a casa por não poderem pagar e agora entram na fila para comprar outra mais barata, afirmou. Paiva não admite que as casas que estão sendo refinanciadas por R$ 120,00 tenham o mesmo padrão das casas pelas quais os mutuários pagam até R$ 360,00.
Outros moradores não se conformam em ter que entregar a casa após terem investido tanto tempo nela. O guarda noturno José Ribeiro dos Santos, foi despejado. Ele conta que estava morando no local há 7 anos. Quando fiz minha inscrição trabalhava eu e mais três filhos. Agora fiquei sozinho e não tenho mais condições de assumir as prestações, por isso me tiraram a casa. Santos recebe R$ 150,00 por mês e tinha uma prestação de R$ 91,00.
O gerente da agência de Cornélio Procópio, Wilson Sfeir, disse que a Caixa nunca teve tantas condições favoráveis à renegociação como hoje. Eu peço que todos os mutuários que estejam com dificuldades, que nos procurem para ver o que podemos fazer. Ele explica que a diferença de prestações que estão ocorrendo é devido às diversas categorias profissionais que tiveram reajustes diferentes.
Segundo Sfeir, os imóveis que estão sendo negociados agora têm preço de mercado. De dois anos pra cá, houve defasagem no preço. Não dá para comparar o preço que era antes do atual, comentou o gerente.
Porém, os moradores afirmam que já tentaram acordo e não conseguiram. Eu investi R$ 5 mil para conseguir a casa e durante quatro anos paguei uma prestação de R$ 250,00. Agora faz dois anos que estou em atraso. Tentei negociação e me mandaram ficar na fila se quisesse conseguir a casa, contou a vendedora Cleide Alves de Souza. A moradora tem três filhos e é divorciada. Ontem pela manhã ficou sabendo que sua casa tinha sido revendida. Se alguém quiser me tirar daqui eu boto fogo em tudo, porque apresentei uma renda de R$ 600,00 de pensão e não fui aceita, garantiu.


