Para obter o financiamento de um imóvel, o cliente só poderá ter, no máximo, 20% de renda comprometida - hoje, o percentual é de 30%
Para obter o financiamento de um imóvel, o cliente só poderá ter, no máximo, 20% de renda comprometida - hoje, o percentual é de 30% | Foto: Gustavo Carneiro -19/03/19

Brasília- A Caixa Econômica Federal lançou, nesta terça-feira (20), uma linha de crédito imobiliário corrigida pelo IPCA, índice oficial de preços, com o argumento de que o novo financiamento vai reduzir os juros para compra da casa própria - embora o indicador seja considerado mais instável que a TR (Taxa Referencial), usada hoje.

As taxas valem para novos contratos e já estarão vigentes a partir da próxima segunda-feira (26). O anúncio foi feito em cerimônia no Palácio do Planalto que contou com a presença de ministros do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo a Caixa, o saldo devedor será atualizado pelo IPCA, a exemplo do que ocorre com a TR, hoje zerada. As mudanças valem para o SFH (Sistema Financeiro de Habitação), para imóveis até R$ 1,5 milhão e que permitem o uso do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), e para o SFI (Sistema Financeiro Imobiliário), para aqueles acima desse valor e sem a possibilidade de uso do Fundo.

A taxa mínima da nova linha, oferecida a clientes do setor público e com melhor perfil de risco, será de IPCA + 2,95% ao ano. Para o setor privado, a taxa parte de 3,25% ao ano mais IPCA. Nos dois casos, a taxa máxima ficará em IPCA + 4,95% ao ano -oferecida a quem não tem relacionamento com o banco.

Hoje, o banco, que detém mais de 70% do crédito habitacional do País, cobra juros de 8,5% a 9,75% ao ano mais TR nas principais linhas de crédito imobiliário - no programa Minha Casa, Minha Vida, os juros são menores.

O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, elogiou o modelo adotado pelo banco para financiamento. "Nós acreditamos que esse passo de oferecer uma linha de crédito imobiliário corrigido por um índice de preços é o futuro", disse.

IMPOSIÇÃO

Durante o evento, Bolsonaro elogiou a iniciativa da Caixa e disse que outros bancos devem seguir o caminho de redução de juros. "Tem uma iniciativa aqui que não vai ser uma imposição. Ou eles [demais bancos] vêm atrás ou o número de clientes da Caixa, que está em 100 milhões, vai aumentar e muito. O anunciado agora aqui, traduzindo no meu linguajar de não entender de economia, acho que quem entendia afundou o Brasil, né?", brincou o presidente.

Bolsonaro, que costuma dizer que não entende de economia, se disse à vontade em discursar depois das falas de Guimarães e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, por estar usando um crachá da Caixa, que ganhou do presidente do banco público.

Os contratos poderão ter prazo de até 360 meses, na tabela SAC - em que prestações diminuem com o tempo -, e valor máximo financiado de 80%. Para obter o financiamento, o cliente só poderá ter, no máximo, 20% de renda comprometida - hoje, o percentual é de 30%. Ou seja, a nova linha será oferecida a quem tem mais folga no orçamento e, portanto, risco menor de dar calote.

Na tabela Price, em que a amortização do principal é menor e a prestação tem valor fixo, o comprometimento de renda permitido é ainda menor: 15%.

Para especialistas, a oscilação do IPCA pode tornar o financiamento mais arriscado e caro ao cliente, principalmente pelo longo prazo do crédito - o contrato pode ter duração de 30 anos. O IPCA é mais agressivo, respondendo mais rapidamente a alguma turbulência econômica. A TR é menos instável e hoje está zerada. O saldo devedor, portanto, não sofre correção na prática.

A mudança foi aprovada em reunião do CMN (Conselho Monetário Nacional) realizada na última semana. Com a nova linha de crédito, a Caixa quer emprestar mais, ancorando-se na possibilidade de empacotar esse crédito e vendê-lo a investidores - que vão avaliar se vale correr o risco de inadimplência de clientes, em vez de optar pela segurança de um título público que, hoje, remunera IPCA mais 3% ao ano, em média.

Em Londrina e região, mercado

imobiliário comemora mudança

Entidades do setor imobiliário veem como positiva a mudança realizada pela Caixa no crédito imobiliário. “É tudo o que o setor esperava”, disse Marcos Moura, vice-presidente do Secovi Regional Norte(Sindicato da Habitação e Condomínios), para quem a redução dos juros poderá atrair novos compradores. Na visão dele, a própria economia deverá controlar a inflação para não prejudicar o comprador de imóvel. “A própria economia vai ter que segurar, senão gera uma situação difícil para o comprador.”

O presidente do Sincil (Sindicato dos Corretores de Imóveis de Londrina), Marco Antônio Baccarin, também comemorou a notícia.“Isso vai trazer uma condição de abrangência para um número maior de clientes. Esperamos que reative o mercado. Evidentemente que há a necessidade que se crie mais empregos, porque não adianta baixar juros se a pessoa não tiver condições de pagar. Mas é um grande incentivo.” Para Baccarin, o IPCA fica “mais próximo da realidade”. “A TR pode não refletir as condições do mercado. Se o IPCA continua controlado, baixo, pode ser um incentivador.”

Economista e professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), o colunista da FOLHA Marcos Rambalducci avalia que, aparentemente, as taxas de juros vão cair com a mudança. Mas, na opinião dele, o objetivo da Caixa com a medida não foi reduzir os juros. Caso fosse, a instituição reduziria a taxa de juros mantendo a Taxa Referencial, que hoje está quase zerada.

A mudança visa dar mais transparência a quem toma crédito, analisa o economista, pois não existe muita clareza em relação à TR e sua composição. “É um cálculo muito mais complexo, que fica impregnado de marasmo. As pessoas não sabem se é justo ou não”, diz Rambalducci. Já a inflação, relacionada à valorização do capital, tem composição mais lógica, é mais previsível e os reajustes salariais estão atrelados a ela. Dessa forma, mesmo que a inflação aumente, o salário do trabalhador crescerá no mesmo ritmo. (Mie Francine Chiba/ Reportagem Local)

Bancos afirmam estudar crédito

pela inflação proposto pela Caixa

São Paulo - Os grandes bancos brasileiros querem ver como será a aceitação e o funcionamento do crédito imobiliário corrigido pela inflação antes de oferecer o produto a seus clientes. Procurados, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander dizem que avaliam a possibilidade de operar pela nova linha.

Pela nova linha, a Caixa deve cobrar um juro de 2,95% a 4,95% ao ano mais a inflação. Com a previsão de que o IPCA termine o ano a 3,71%, o custo anual do financiamento seria de 6,71% em 2019. Em 2020, com projeção de que a inflação termine em 3,90%, o crédito custaria 6,90%.

A taxa ainda seria menor que os 7,99% atualmente cobrados por Banco do Brasil e Santander, que oferecem as taxas mais baixas para financiamentos com recursos da poupança.

Como a Caixa tem mais de 60% do mercado de financiamento imobiliário, a tendência é que uma redução no custo do crédito pelo banco público seja seguida pelas demais instituições financeiras.

Por enquanto, os demais bancos negam planos de novos cortes nos juros, ainda que haja uma forte competição nesta linha.

Como há menor risco de calote nesta linha na comparação com as demais, os bancos têm expandido as concessões de crédito para a compra da casa própria durante a crise. O movimento segue a trajetória de queda da taxa Selic, atualmente em 6% ao ano. O mercado financeiro espera que ela possa cair ainda mais, para 5% até o final de 2019. Isso torna o custo do dinheiro menor e permite que as taxas de juros caiam onde há competição.

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