Cai frequência em restaurantes e selfs
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 1997
Carina Paccola 
Paulo WolfgangMudança de hábitoA febre dos self-services, que modificou o mercado de refeições prontas a partir de 1990, já não segura o frequentador dos restaurantes em Londrina: o movimento teve retração de até 40% em alguns estabelecimentos nos últimos mesesFazer refeições fora de casa começa a pesar no orçamento da classe média. Às vésperas de o Plano Real completar três anos, o setor de restaurantes vive uma retração no consumo. As famílias já não frequentam os restaurantes como faziam antes. Não é um problema de Londrina. É geral. No Plano Real, talvez esse seja um dos piores momentos para a população, diz o presidente do Sindicato dos Bares, Hotéis, Restaurantes e Similares de Londrina, Newton Sborgi. Ele calcula que o movimento nos restaurantes caiu em torno de 30% a 40% em Londrina.
A gerente de loja Sandra Piazalunga, casada e mãe de dois filhos, diz que a família passou a comer mais em casa para conter gastos. Antes íamos com mais frequência. Jantávamos fora na sexta-feira, e aos domingos, era sagrado almoçar em restaurante. Hoje, cortamos esse gasto. Comer fora passou a ficar caro para a classe média, avalia.
A família da empresária Lucita Karam também mudou os hábitos. Casada e com duas filhas, ela conta que hoje pede mais comida por telefone e reúne-se com os amigos para almoçar e jantar juntos em casa. Aproveitamos para nos visitar e nos divertir.
Além da queda do poder de consumo da classe média, outros fatores explicam a retração no movimento do setor. Newton Sborgi afirma que houve uma proliferação de restaurantes em Londrina, que hoje tem 92 estabelecimentos. Houve um boom no setor. Muitos dos que perdem o emprego e pensam em abrir um negócio partem para a gastronomia. Quanto maior a crise, mais pessoas disputam esse mercado, afirma. No ramo de self-service, o preço do quilo da comida varia de R$ 6,60 a R$ 9,90, de acordo com Sborgi. Em Londrina, é módico tanto o preço de comida pronta como o de hospedagem, se compararmos com os grandes centros, diz.
Empresário do setor de refeições rápidas, Ênio Sehn também afirma que a concorrência é grande na Cidade. As pessoas fazem um levantamento dos valores dos gêneros alimentícios e acham que é altamente lucrativo abrir um restaurante. É aí que se enganam. Porque o custo é alto: tem aluguel do ponto, mão-de-obra. Geralmente os novos estabelecimentos colocam o preço lá em baixo, aí o dono quebra, passa o ponto. O outro quebra e passa pra frente. Aqueles que trabalham com qualidade ficam com seus preços defasados.
Entre os custos do negócio, aluguel do ponto pesa bastante para a maioria dos empresários do setor. Segundo Sborgi, 95% dos donos de restaurante em Londrina pagam aluguel do prédio. Isso impede investimentos em reforma ou ampliação dos estabelecimentos, ou até mudança de sistema de atendimento para o self-service, que virou febre no início da década de 90 e hoje é o segmento mais forte.
Segundo Ênio Sehn, em junho caiu o volume de refeições do seu restaurante self-service. A média, que vinha se mantendo nos últimos meses entre 500 a 600 refeições/dia, está atualmente um pouco abaixo de 500. Nosso movimento ainda está bom, mas cada vez mais vamos atrás da qualidade, os funcionários fazem curso, nos reciclamos. Hoje em dia não basta ter qualidade, o bom atendimento conta muito.
Um dos pioneiros no sistema self-service na Cidade, Márcio Makoto Missaka, afirma que não calculou ainda quanto caiu o movimento para não levar um susto. Ele atribui a crise do setor à dificuldade financeira da população e à concorrência. Procuro melhorar sempre para segurar o consumidor, mas são poucos os clientes fiéis.
O uso do vale-refeição para outras finalidades que não a de comprar comida pronta também tem tirado público dos restaurantes. Com dificuldade de ajustar o salário às despesas, o trabalhador nem sempre utiliza o vale-refeição para a finalidade correta. Muitas vezes o tíquete serve para as compras de supermercado, ou então é vendido com deságio no mercado paralelo. Há um desvirtuamento do seu uso. Supermercados e bares também aceitam o vale-refeição como pagamento. Ou então há troca do tíquete por dinheiro.
Trabalhador do setor gráfico, J.P.C.J. afirma que há mais de dois anos negocia os tíquetes com 12% de deságio para pagar as contas de casa. No início, eu tomava lanche com os tíquetes. Depois, passei a fazer compras no supermercado. Agora, nem dá. Eu vendo para usar o dinheiro. Este mês, excepcionalmente, fiz compras novamente porque minha casa estava desabastecida e deixei de pagar as contas.


