Café sobe mais no primeiro semestre
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quarta-feira, 17 de dezembro de 1997
Oswaldo Petrin 
Dorico da SilvaOtimistaVicente Bertoni (dir.), ontem em Londrina: só o Brasil tem condições de suprir o aumento da demanda mundial de café Os preços mais altos do café estão reservados para o primeiro semestre do próximo ano. Mas os produtores não devem ver apenas vantagem nesta performance do mercado. No caso do Brasil, os R$ 250,00/saca pagos internamente acabam encostando nos US$ 300,00 no exterior, valor que pode afugentar os consumidores. No segundo semestre o mercado vai cair com o reinício das ofertas, porém sem o perigo de chegar aos patamares de 1993. Hoje o setor está mais apto para administrar a comercialização.
A opinião é do vice-presidente do Conselho Nacional do Café, Manoel Vicente Bertoni, ao analisar as tendências de mercado. Bertoni falou em Londrina, no Curso Avançado do Agronegócio Café do Paraná, promovido ontem de manhã pela Emater, Seab e Iapar. O evento, aberto pelo diretor geral da Secretaria da Agricultura, Clóvis Manoel Pena, reuniu no CDT/Iapar, praticamente todos segmentos da cadeia café: produção, comercialização, torrefação, moagem, embalagem e distribuição, um público selecionado, cerca de 150 pessoas, que representou as cooperativas, operadores de mercado, órgãos de governo e bolsas de mercadoria.
Bertoni disse que a grande maioria dos produtores brasileiros não será beneficiada com a alta dos preços porque já vendeu sua produção. A única forma de a maioria se beneficiar dos preços é o governo vender bem os estoques do Funcafé. Se este cenário (de preços altos no primeiro semestre e queda no segundo semestre de 98) fosse feito nas condições de três ou quatro anos atrás, eu teria de admitir o risco de cairmos para a triste marca dos US$ 40 a US$ 50/saca como aconteceu na ocasião. Mas a realidade é outra: o Brasil está com um marketing mais agressivo, as decisões são mais rápidas e os setores envolvidos estão mais profissionais, explicou.
Segundo Bertoni, ao contrário do que ocorreu em 94/95, com queda acentuada de preços nós é que vamos pegar o mercado internacional no menor nível de todos os tempos. Ao falar sobre a nova realidade brasileira em relação ao café, Bertoni elogiou o trabalho da Abic para implementar as vendas. Além disso, o mercado está sendo mais receptivo e novas modalidades de consumo vão surgindo. Citou a expansão do consumo na Rússia e Japão.
Sempre com palavras otimistas sobre o futuro do café, Bertoni disse que o único país que tem condições de suprir um aumento de demanda estimado em 15 milhões de sacas é o Brasil. Apontou as limitações de cada um dos principais produtores. A Colômbia cresceu e soube promover bem seus cafés, mas já está no limite. Sem falar que tem problema de broca, mistura varietal e limitações quanto à qualidade. Os países centro-americanos estão desde 1993 com a mesma produção e não souberam aproveitar os bons momentos que o mercado ofereceu nos últimos anos, naturalmente porque também atingiram seu limite. Como a Colômbia, aqueles países também têm problema de mão-de-obra. Na África, Uganda e Kênia têm chances muito modestas. Restam a Ásia e Indonésia cujo trunfo é uma mão-de-obra muito barata. Indonésia e Ásia deixaram de correr atrás de nichos de mercado, hoje disputam uma boa fatia, mas não são grandes concorrentes.
Atribuição de cada um O encontro chamou a atenção dos participantes pelo nível de informações e pelo enfoque de cadeia produtiva que as instituições promotoras estão conferindo ao produto. A palestra de Adelar A. Motter, do Iapar, sobre cadeia produtiva e o agronegócio café, remete as discussões para ações concretas como: zoneamento agroclimático, associado ao fator qualidade e tecnologia; definição de qualidade para cada região ou microrregião; exemplos bem-sucedidos fora e dentro do País, caso da Patata típica di Bologna e do café do cerrado (Caccer).
Conforme Marcos Valentim, coordenador da Área de Difusão de Tecnologia do Iapar, a etapa a seguir é o encaminhamento e atribuição do papel de cada setor envolvido. O Curso Avançado do Agronegócio Café do Paraná é um fórum permanente envolvendo os interesses de cada agente do setor, do produtor ao varejo. O presidente do Iapar, Florindo Dalberto, e o chefe do Núcleo Regional da Seab, Juarez Moreira, chamaram a atenção para a importância dessa discussão que é inédita no Brasil. Do encontro participaram presidentes de cooperativas; lideranças como o presidente da Associação Comercial de Londrina, Abílio Medeiros; lideranças do mercado cafeeiro como Antônio Abrão e Nagib Abud, presidentes das Bolsas locais.
Um dos expositores, Francisco Barbosa Lima, técnico do Denac e produtor, disse que não é verdadeira a tese de que o mercado não contempla qualidade. Segundo ele, a visão de cadeia pode acabar com o vício que afeta os setores de produção e industrialização: o produtor não faz qualidade porque acha que o mercado não contempla o melhor café; já o mercado não paga pela qualidade por achar que o produtor não investe na melhoria desejada. Isto está deixando de existir, segundo Barbosa. Ele garantiu perante uma platéia de produtores e operadores de mercado, que a boa mercadoria sempre alcança melhores preços.
Bertoni, ao contrário, procurou não atribuir importância ao fator qualidade. Durante sua palestra sobre perspectiva de mercado, ele disse que a determinante em café é ser competitivo e competitividade têm aqueles que reduzem custo e não necessariamente apresentam qualidade. Bertoni chegou a dizer que o café está mais para borracha do que para vinho, explicando: você não sabe de onde vem a matéria-prima do pneu do seu carro, nem as misturas que a compõem. O mesmo ocorre com o café que se toma do outro lado do Oceano, ao contrário do vinho em que a procedência, composição e outras especificações são atributos de que não se pode prescindir. A platéia, certamente, não concordou.


