Como no ano passado, excesso de chuvas na região já pode ameaçar a qualidade do café neste mês e em juho
Como no ano passado, excesso de chuvas na região já pode ameaçar a qualidade do café neste mês e em juho | Foto: Marcos Zanutto



Desde a última quinta-feira (18), o produtor rural paranaense sem dúvida olha para o céu com mais frequência. Alguns satisfeitos com as chuvas acima da média que aconteceram no Estado – como é o caso dos que apostaram no trigo e milho safrinha. Outros com a cabeça quente por enfrentar as precipitações no momento de colheita, exemplos da segunda safra de feijão, o café e, claro, as olerícolas, sempre sensíveis às chuvas constantes.

O fato é que choveu demais em diversas regiões e, nos próximos dias, o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura (Seab) começa a calcular os prejuízos para essas culturas que estão em fase de colheita. Só em Londrina, por exemplo, na última sexta, sábado e domingo choveu 128 milímetros (mm). Somados aos 84 mm que já havia chovido em maio, o acumulado atingiu a marca de 212 mm até ontem. Os números são do Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar). "O volume esperado para o mês de maio é de 117 mm. Ou seja, as precipitações médias já foram superadas tranquilamente", explica a meteorologista Angela Beatriz Costa, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).

O café está com 5% da área colhida e, até o momento, 1% do total está em condições ruins. A previsão é que a colheita fique entre 1,2 milhão a 1,33 milhão de sacas, volume entre 10% a 22% maior que a produção obtida em 2016, de 1,09 milhão de sacas. A grande questão das chuvas não está ligada ao volume produtivo, mas à qualidade do grão. "A sequência e intensidade das chuvas atrapalham bastante nesta fase de grãos maduros. A queda dos frutos no chão, somado ao excesso de umidade, prejudica a qualidade e, claro, influencia nos preços recebidos pelo cafeicultor", explica o economista do Deral e o secretário executivo da Câmara Setorial do Café, Paulo Franzini.

Vulneráveis
Neste momento, com a fase de maturação adiantada (89% no Estado), as plantas ficam mais vulneráveis. Hoje o valor da saca para o café bebida dura gira em R$ 450. Com a perda de qualidade, a saca tem um deságio de 10% a 15%, caindo em torno de R$ 70. "Se o tempo firmar e o produtor conseguir colher e 'levantar' esse café do chão, ele diminui o prejuízo. Mas no ano passado, por exemplo, tivemos problemas de qualidade significativos nos meses de maio e junho devido ao excesso de chuvas".

Até pouco antes das chuvas, a análise de Franzini é que a granação dos frutos teve uma ótima evolução entre novembro e abril. "A colheita segue até o início de setembro, mas se as chuvas continuarem com essa intensidade, acaba acelerando o processo", complementa.

No caso do feijão segunda safra, os números de qualidade também são preocupantes. Até o momento, 32% da área foram colhidos, mas 16% estão em condições ruins. A fase de maturação já chega a 61%, segundo o Deral. A expectativa é uma produção para a safra 2016/17 de 445,3 mil toneladas, 50% maior do que as 297,3 mil toneladas da safra passada. "No ano passado, tivemos uma perda no feijão de 25%, mas as chuvas aconteceram do início ao fim da safra. A umidade prejudica a qualidade final do produto, devido ao ataque de fungos, por exemplo. Esse clima cinzento e molhado gera uma inquietação no campo. Podem acontecer perdas devido a essa situação climática, mas ainda é muito cedo para dizer".

Milho se beneficia com precipitações
Quando se trata do milho safrinha, os produtores estão mais sossegados em relação à lavoura, afinal, quase 90% dos grãos ainda estão em fase de floração e frutificação, ou seja, favoráveis a precipitações mais intensas. "Neste estágio, as chuvas são importantes para a formação do grão. O que atrapalha mais é se acontecerem temporais ou vendavais, algo pontual em alguns locais do Estado", explica o técnico do Deral especializado na cultura, Edmar Gervásio.

A expectativa de colheita do milho segunda safra 2016/17 é de 13,8 milhões de toneladas, 36% a mais do fechado em 15/16, em 10,2 milhões de toneladas. "No geral, a chuva é salutar nesta 'fase adulta' da planta. Se houve um cuidado no manejo e de solo, tudo ainda está dentro da normalidade. A expectativa nossa ainda é muito boa, tivemos um nível de insolação maior, que inclusive beneficiou que fez o plantio atrasado de 15 dias no Oeste do Paraná", explica Gervásio.

O maior risco climático fica, novamente, com as geadas e chuvas na colheita. "Ainda é muito difícil dizer se os números projetados de volume vão se confirmar. Quando se trata de clima, há uma gama de situações que podem acontecer, influenciado na queda de produção ou de qualidade. Vamos ver como a safra vai se comportar daqui pra frente". (V.L.)

Ânimos variados entre produtores
Produtores estão com os ânimos mais variados possíveis para falar sobre as chuvas dos últimos dias por todas as regiões do Estado. Quem trabalha com grãos, como milho e trigo neste inverno que está por vir, se mostra mais sossegados, enquanto quem aposta nas olerícolas e café já espera algumas perdas.

Ademar Uemura plantou 400 hectares de trigo em Mauá da Serra (Norte), que segundo ele, acabou de germinar. Por ora não está preocupado com as chuvas intensas, o problema está no momento da colheita. "Costumo dizer que o trigo precisa apenas de três chuvas. Nem precisa de tanta água como veio até agora, mas não vai prejudicar. O grande problema é se continuar dessa forma até chegar na colheita. Aí a situação ficará preocupante".

Eliel dos Santos trabalha com olerícolas numa área de sete hectares localizada no Patrimônio Selva (zona sul). Ele estima que as perdas com as chuvas chegam a 30%, principalmente de folhosas. "Tive perdas de rúcula, almeirão e, principalmente, alface. São aproximadamente 1.200 pés que entrego diariamente, mas agora não conseguirei atender a demanda. A situação vai voltar ao normal em cerca de 15 dias", complementa.

Por fim, Antônio Vanzo possui uma área de 1 alqueire de café, mas ainda não começou a colheita. "Minha área é pequena e ainda fica difícil calcular se haverá perdas. Vou começar a colher entre 10 e 15 de junho, mas sinceramente, já não coloco muita fé no café. Seja produto de qualidade ou não, os preços não estão interessantes". (V.L.)

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