Alheios à crise que tomou conta da cafeicultura brasileira, 45 produtores de café do distrito de Lerroville, em Londrina, se preparam para comercializar sua produção por valores maiores que o dobro do preço pago pelo mercado. No próximo dia 1º de abril, eles firmarão um contrato de venda de mil sacas de café beneficiado para empresários franceses, que pagarão 120 euros (ou R$ 438,00) por saca, livre de transporte, seguro e taxas de exportação. Os contratos se repetirão por cinco anos.
A transação será possível graças ao projeto Café de Lerroville, que trouxe ao município o conceito de ''mercado solidário de comércio justo''. Segundo a advogada Ciliane Carla Sella de Almeida, que idealizou o projeto, trata-se de uma negociação que aproxima produtores e consumidores ao eliminar os atravessadores. Para aderir à prática, os cafeicultores tiveram que se adequar a normas ambientais e sociais que têm o objetivo de garantir o desenvolvimento sustentável da produção e do produtor rural. Por isso, todas as propriedades envolvidas encontram-se em processo de conversão para a produção orgânica.
Na França, a entidade parceira do projeto é a organização não governamental (ONG) Monde Diplomatique, que articulou a participação de empreendedores do município francês de Saint-Etienne. A população desta cidade soma 450 mil habitantes, é grande consumidora de café e consciente da sustentabilidade do planeta nas relações de países centrais com os países periféricos.
Londrina foi escolhida pela sua fama de ter sido capital mundial do café e por ainda manter a atividade cafeeira. Lerroville chamou a atenção porque, no distrito, predomina a produção de café em pequenas propriedades familiares. Essa característica, aliás, é um dos pré-requisitos para participar do comércio justo. Além disso, produtores têm que se comprometer a cuidar do meio ambiente e abolir trabalho escravo ou de crianças contratadas, entre outras exigências socialmente corretas.
Outra necessidade é a associação em entidades formais. Os cafeicultores de Lerroville fazem parte das associações de produtores da Água da Limeira e Água da Laranja Azeda. O agricultor Fábio Gonçalves dos Anjos, presidente da associação da Laranja Azeda, contou que os produtores decidiram aderir à proposta porque não tinham mais soluções para enfrentar a crise de preços enfrentada pela cafeicultura.
A parceria com entidades como Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Emater, secretarias de agricultura do Estado e do município e o Instituto Maytenus (que faz a certificação orgânica) ofereceu segurança para eles apostarem na mudança.
Mesmo antes de concretizar a primeira venda, os envolvidos já comemoram bons resultados. Com a abolição do uso de defensivos e adubos químicos, o custo de produção caiu sem prejuízo da produtividade. ''Mesmo que vendêssemos pelo preço de mercado, já ganharíamos dinheiro'', disse Fábio.
Outra mudança aconteceu na qualidade de vida das comunidades. ''Tinha muito produtor com problema de saúde por causa do veneno'', exemplificou. Graças à estabilidade garantida pelo preço justo, os agricultores começam a ter condições de ''organizar a vida''. ''Não precisamos mais nos preocupar com o mercado. Nossa preocupação, agora, é com qualidade e produtividade.''

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