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Londrina

Economia

m de leitura Atualizado em 12/03/2022, 06:00

Cadeia produtiva teme impacto da alta dos combustíveis

Setor de transporte afirma que preço do diesel inviabiliza atividade e agronegócio considera situação ‘assustadora’

PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de março de 2022

Simoni Saris - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

Foto: Roberto Custódio
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Setores produtivos da economia nacional preveem um período de grandes dificuldades pela frente, em razão da nova alta dos combustíveis, aplicada a partir de sexta-feira (11). Sob a justificativa da guerra entre Rússia e Ucrânia, que elevou o preço do barril de petróleo para US$ 140, a Petrobras aumentou em 18,8% o preço da gasolina e em 24,9% o do diesel. Somados aos reajustes anteriores, os novos preços podem inviabilizar o exercício de algumas atividades enquanto outras temem prejuízos à produção e perda de competividade. 

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|  Foto: Roberto Custódio
 

O setor de transporte rodoviário de cargas, um dos mais impactados pelos aumentos sucessivos dos combustíveis, vê com muita preocupação o futuro da atividade. Sem uma definição no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a aplicação da tabela de frete mínimo, os caminhoneiros têm observado uma redução gradual de sua margem de lucro, o que dificulta cada vez mais o exercício da profissão. 

Presidente do Sindicato de Transportes Rodoviários Autônomos de Bens de Londrina e Região, Carlos Roberto Dellarosa afirmou que nos próximos dias muitos caminhoneiros deverão deixar as estradas não em protesto contra os aumentos dos combustíveis, mas por impossibilidade de se manter na atividade. Segundo ele, o diesel, que representava em torno de 60% dos custos dos motoristas, com a última alta terá impacto de 80%. “Isso daí é a morte para os caminhoneiros. Eles vão parar porque não conseguem pagar para trabalhar.” 

Entre março e abril, quando o maior volume da produção nacional de soja é transportado para os portos do país, os agricultores talvez tenham de enfrentar a falta de profissionais para fazer o escoamento da safra. Dellarosa cobra uma revisão significativa nos valores dos fretes pagos aos caminhoneiros e um posicionamento do governo federal no sentido de conter os aumentos. “O governo tem que tomar uma providência urgente porque se não quebrar o país, vai haver uma inflação altíssima no nosso país porque o consumidor final vai pagar essa conta.” 

“A alta vai ter um impacto grande porque tudo o que chega e sai da propriedade rural vai no lombo do caminhão e um dos componentes de insumo mais representativos é o diesel”, destacou o presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), Antonio Sampaio. Ele não soube precisar em números o reflexo desse novo aumento nos custos da produção porque o valor do frete nem sempre aumenta na mesma proporção, o repasse leva um tempo. “Entendo perfeitamente que é uma coisa do momento internacional, que não há como escapar, mas é uma situação bastante assustadora. Temos que nos adaptar, mas vai fazer um aumento grande de custos e isso vai ter que ser jogado para a frente, segue em uma cascata.” 

Postos que mantiveram os preços registraram grande procura de consumidores na quinta-feira (10) Postos que mantiveram os preços registraram grande procura de consumidores na quinta-feira (10)
Postos que mantiveram os preços registraram grande procura de consumidores na quinta-feira (10) |  Foto: Roberto Custódio
 

Mais preocupante que a alta nos custos, porém, é o risco de desabastecimento, afirmou Sampaio. "O óleo diesel já está mais escasso no mercado e isso pode comprometer toda a produção. Todas as vezes em que se fala que o combustível vai subir, o revendedor puxa o freio e fica esperando para ver o que vai acontecer. Aconteceu comigo esses dias. Eu não estava conseguindo comprar diesel. Isso é horrível porque se estou com uma máquina colhendo ou plantando, não posso parar por falta de combustível. Temos janelas de plantio e de colheita.” 

A alta nos preços dos combustíveis irá respingar em todos os setores econômicos. O economista Marcos Rambalducci calcula que o aumento de quase 25% no preço do óleo diesel irá representar um incremento de 1,4% na inflação, reduzindo ainda mais o poder de compra da população. Quem iria comprar R$ 100, agora só poderá comprar R$ 98,60. E os aumentos de preço para o consumidor final devem ser imediatos, uma vez que os transportadores já estão pagando os novos preços e precisarão repassar essa alta aos seus produtos. Os alimentos, especialmente os perecíveis, são os artigos que respondem mais rapidamente a esta alta, lembrou o economista. “Isso significa que o setor produtivo precisará se ajustar a uma nova capacidade de consumo mais baixa, o que significará menos geração de empregos e, certamente, da dinâmica da economia.” 

Rambalducci ressaltou ainda que cabe ao Banco Central tentar conter um processo inflacionário e que o principal instrumento de que dispõe é a elevação da taxa de juros. Essa medida, no entanto, causa ainda mais recessão. “Estamos em um momento bastante delicado na economia. Não é uma exclusividade do Brasil, mas isso não serve de consolo.” 

 

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|  Foto: Gustavo Carneiro
  

Procon notifica 32 postos em Londrina 

Na quinta-feira (10), antes dos preços serem reajustados nas bombas, o que se viu foram grandes filas nos postos de combustíveis de consumidores que queriam aproveitar para abastecer no preço antigo. Mas muitos revendedores aplicaram o reajuste antecipadamente. Em Londrina, o Procon notificou, até o momento, 32 postos para que apresentem as notas fiscais de entrada e de saída desse período a fim de verificar a irregularidade.  

Se constatado que houve aumento antecipado, será aberto um auto de infração contra os postos de combustíveis, que poderão ser multados em penas que variam de R$ 700 a R$ 11 milhões. “Agora, se constatado que foi a distribuidora que fez esse repasse ao posteiro, encaminhamos ao Ministério Público para que tome as devidas providências”, disse o coordenador do Procon em Londrina, Thiago Mota Romero. 

Com reajuste antecipado ou não, a maioria dos postos de combustíveis da cidade ainda não repassou ao consumidor o percentual anunciado pela Petrobras. Até esta sexta-feira, a gasolina teve um reajuste médio de 5,7%, o etanol, de 3%, e o diesel subiu cerca de 18%. O preço da gasolina comum variava entre R$ 6,30 e R$ 7,50 no aplicativo Menor Preço, do governo estadual.

“Nos últimos meses, meus gastos com combustível aumentaram aproximadamente 30%. Nem dá mais para encher o tanque, só quando vou viajar. Eu uso o carro para trabalhar, mas está ficando difícil. Não consigo aumentar na mesma proporção o preço do meu serviço, mas tudo sobe. Está difícil para um pai de família pagar aluguel, água, luz e comida”, disse Alexandre Silva Lopes, que desde que ficou desempregado passou a trabalhar como faz-tudo.  

Em nota, o Paranapetro esclareceu que desde o último final de semana, algumas distribuidoras começaram a reajustar os preços de venda para os postos, antes mesmo de qualquer anúncio oficial de elevação pela Petrobras sob a alegação de maior entrada de combustíveis importados no mercado. De acordo com a entidade, esta tem sido uma prática recorrente. 

O sindicato informou também que recebeu inúmeros relatos de revendedores segundo os quais algumas distribuidoras estariam dificultando as vendas para os postos no dia do anúncio do aumento e na véspera, com o intuito de revender os produtos já com os valores mais altos. “Este represamento se deu na forma de pedidos bloqueados, sites de compra fora do ar e centrais telefônicas de suporte que não atendiam as ligações”, informou a nota. 

 A reportagem entrou em contato com o Sindicom (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes), mas não obteve resposta. 

 

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|  Foto: Arquivo
 

Prefeito repreende donos de postos e critica Lei da Muralha 

Durante coletiva de imprensa realizada em seu gabinete na sexta-feira (11), o prefeito Marcelo Belinati repreendeu a conduta de donos de postos de combustíveis em Londrina, que decidiram aplicar os reajustes antes de o aumento entrar em vigor. “O que nós vimos em Londrina foi exatamente uma falta de respeito absoluta”, declarou.  

Para coibir práticas como essa, Belinati defendeu a derrubada da Lei 9.689/2005, denominada Lei da Muralha, que delimitou um quadrilátero no centro da cidade, dentro do qual só poderiam ser implantados estabelecimentos comerciais chamados de polos geradores de tráfego. Em 2006, a aprovação da Lei 10.092 tornou a Lei da Muralha ainda mais restritiva ao ampliar o quadrilátero e proibindo a instalação de empreendimentos dentro de uma metragem específica para cada ramo de atividade, prejudicando a livre concorrência. 

Dentro das restrições impostas pela Lei da Muralha está a construção de novos postos de combustíveis. Em 2017, o Executivo enviou um projeto à Câmara Municipal para tentar derrubar a lei, mas não teve sucesso. A questão deveria ser debatido dentro do Plano Diretor, mas Belinati disse que irá antecipar as discussões. “Os empresários têm que ganhar pela concorrência, pela capacidade, pela qualidade do seu produto, pelo preço que oferece e não porque está proibido alguém concorrer com ele.”(Colaborou Pedro Marconi) 

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