Cadê a recessão?
Autor intelectual do Real, o economista Pérsio Arida propõe a ignição de retromotores para a travessia de 1997. Em entrevista a O Estado de S. Paulo, o ex-presidente do Banco Central estremece os coretos planaltinos e enche o balão de todos os catastrofistas da análise econômica: o Real não se sustenta com PIB acima de 3% ao ano. Nasceu recessivo e pode morrer atrofiado.
Desaquecimento? Desaceleração? Ué! Por acaso não estamos em recessão, com quebradeira das pessoas jurídicas e desemprego das pessoas físicas? Outro não tem sido o discurso de empresários e de sindicalistas: ‘‘Tá tudo parado!’’ Não tenho ouvido outra coisa em minhas andanças pelo interior.
Por causa disso, o presidente da República, escoltado pelo ministro do Planejamento, cacareja os ovos da retomada do crescimento sustentado. Uma retomada turbinada pelos 42 projetos do Brasil em Ação. Municiada pela expansão do crédito, com redução cautelosa dos juros. Reforçada pela desoneração das exportações. Encorpada pela enxurrada de investimentos das multinacionais. E robustecida pelas medidas de amparo às micros e pequenas empresas. Sim, 1997 deve ser o ano da virada, marco zero de um longo ciclo de expansão, no figurino de Kondratieff.
Eis que a entrevista de Pérsio Arida confunde os dois lados da mesma bola: o dos catastrofistas e o dos desenvolvimentistas. Os primeiros sustentam que se o Real correr o déficit come; se parar, a recessão mata. Que déficit? O do setor público e o da balança comercial. Sim, os dois novos carrascos do Real. Como se um e outro fossem subprodutos da estabilização feita a ferro e fogo: o ferro da sobrevalorização da moeda e o fogo da expiação monetária criogênica.
Os desenvolvimentistas preferem vender o peixe gordo do crescimento a qualquer custo e risco. Chegaram a espalhar, ali pela altura de agosto, mês do cachorro louco, que uma pequena recarga inflacionária não teria a mínima importância - se provocada pelo relançamento da produção e do emprego. Até o FMI, em paper acadêmico, admitiu a tese, pontificando: elevar juros e esfriar negócios para rebaixar a inflação para menos de 3% ao ano é um exercício inútil, além de desagradável.
Afinal, estamos ou não estamos em recessão? Estamos ou não estamos em expansão? Nem uma coisa nem outra. Estamos em processo de normalização da demanda, recepcionada por oferta equivalente, pondera o sereno Pedro Malan, ministro da Fazenda. Para quem os analistas ciclotímicos bem que deveriam deixar o Real em paz. Afinal, o Real já foi enterrado sete vezes. Parece que tem fôlego de sete gatos.

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