Cachaça, remédios e energia, a partir do subproduto da cana
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sábado, 10 de março de 2007
Chico Siqueira<br> Especial para a AE 
Araçatuba - Nem só para fabricar cachaça, açúcar e álcool serve a cana-de-açúcar. A partir do melaço, vinhaça e bagaço, subprodutos da cana, é possível produzir desde energia elétrica a nutrientes para alimentação do homem e animais e componentes da indústria química e agrícola. É possível, por exemplo, fabricar salgadinhos, rações, remédios, xampus, sabonetes, sorvetes, papel, madeira de aglomerado, palmitos, inseticidas, vodca, licores, potinhos de iogurte e de margarina, canetas, telefones e uma infinidade de objetos de plástico biodegradável. Houve até quem retirou diamante da cana, como o engenheiro Viktor Baranauskas, de Campinas, a 100 quilômetros de São Paulo (SP).
Por isso, não é estranho que cada vez mais empresas brasileiras e estrangeiras aumentem os investimentos no País atrás de outros produtos além do etanol e do açúcar. A gigante japonesa Ajinomoto, por exemplo, foi uma das primeiras a descobrir as vantagens da biotecnologia a partir da cana. Desde 97, a empresa já investiu US$ 150 milhões em duas unidades, em Valparaíso e Pederneiras, no interior de São Paulo, para fabricar até 130 mil toneladas por ano de lisina.
Retirada do xarope ou do açúcar da cana, por um processo de fermentação da sacarose, a lisina é um aminoácido que serve para balancear rações de animais, sobretudo aves e suínos. Atualmente, a empresa emprega 400 trabalhadores nas duas unidades, que garantem à Ajinomoto a liderança mundial no mercado de lisina. Segundo Júlio Myamoto, diretor da empresa no Brasil, a lisina também pode ser retirada de outra matéria-prima do açúcar, como a beterraba. A tonelada da lisina custa cerca de US$ 1,5 mil.
Outra grande multinacional é a Alltech, líder mundial na fabricação de nutrientes para ração animal, que investiu US$ 35 milhões na construção da maior fábrica de levedura do mundo, em São Pedro do Turvo, interior do Paraná. A unidade fabrica nutrientes e aditivos a partir de cepas especiais criadas em laboratórios de biociências da Alltech nos Estados Unidos, Canadá e Irlanda, informa Roberto Valeixo, diretor da Alltech para a América Latina.
Os nutrientes fortalecem a saúde de animais consumidos pelo homem. Em alguns casos, substituem antibióticos, rejeitados pelos europeus. As pesquisas indicaram que o melaço da cana-de-açúcar é a fonte de alimentação para as cepas, que serão transformadas em dezenas de produtos e exportadas para mais de 60 países.
A Zillor é outra empresa brasileira que apostou no mercado de levedura e investiu US$ 25 milhões na criação da Biorigin, empresa que vai produzir 18 mil toneladas/ano de levedura para exportação. A Biorigin ainda vai receber mais US$ 20 milhões para aumentar sua produção, informa Mário Weltman Steinmetz, diretor da empresa, em Lençóis Paulista (SP).
Na região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, as usinas descobriram há muitos anos as outras utilidades da cana. Na safra deste ano, as grandes novidades serão lançadas pela Usina São Francisco, de Sertãozinho, que vai produzir uma cera para fabricar cápsulas de medicamentos e um açúcar que não usa mistura química para se tornar branco.


