Caçapa cantada
Caçapa cantada
Se depender do salão oval da Casa Branca de susto, os Estados Unidos deixarão de ser um país capitalista para se transformar no novo paradigma do socialismo fiscal, de corte neokeynesiano. Assinado: Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia e principal ideólogo da economia liberal de mercado.
O assistencialismo estatal de baixa produtividade e de alta permissividade, segundo Friedman, vai continuar produzindo estragos orçamentários de grande magnitude. A proclamada austeridade da administração Clinton contentou-se com descartes meramente cosméticos. O déficit estrutural permanece intacto, decreta o autor de CAPITALISMO E LIBERDADE (1962).
Em 1992, Clinton discursou no Congresso: eliminar o déficit público é uma utopia anarquista. No caso americano, a compressão do caixa federal promoveria o desaquecimento da economia em troca de coisa nenhuma. Afinal, a inflação americana é meramente residual.
Pelo sim, pelo não, Clinton parte para a reeleição, nesta terça-feira, cacarejando os ovos da austeridade orçamentária: o déficit federal recuou 62% entre o projetado e o realizado. De que maneira? Aumentando os impostos, vocifera o oponente Robert Joseph Dole. Doravante, esgotada a capacidade técnica e política de aumentar a carga fiscal, Clinton vai ter de governar com o bisturi no segundo mandato. Emenda constitucional aprovada pelo Congresso obriga o governo a zerar o déficit público até outubro de 2002. Déficit financiado por uma dívida pública que alcança dois terços do PIB.
Recentemente, o governo mandou rever os chamados programas afirmativos da área social. E ordenou a primeira grande descarga dos gastos com o funcionalismo. Perdeu votos na corporação, mas deve ter faturado votos, com sobras, na população. Também nos Estados Unidos, o empreguismo é palavrão.
Reeleito, William Jefferson Clinton espera passar pelo Congresso (de maioria republicana) uma redução da carga tributária da ordem de US$ 150 bilhões em cinco anos. Bob Dole rebate: dá para cortar até US$ 550 bilhões. Comício aceita tudo.
Se o governo vai mal, a economia vai bem. A inflação está abaixo de 3% ao ano. A produção aproxima-se de 3%. E o desemprego recua para 5% - contra 11% na média da União Européia. Ou 5,2% no Brasil de setembro. E a indústria americana recupera o primeiro lugar no ranking da competitividade mundial. Ou seja: Clinton será reeleito hoje pelo HOMO ECONOMICUS. Entre dois bocejos de tédio.





