Cabeleireiro quer 'doar' Uno comprado por leasing
O cabeleireiro de Londrina Pedro Jesus Gomes está disposto a doar seu fiat Uno 97/98 para quem se habilitar a assumir as 24 prestações que faltam do leasing feito para a compra do carro, em dezembro de 97. Ele tomou a decisão depois de constatar que seu orçamento ficou pequeno demais para a alta superior a 40% no dólar, nos últimos dias. O contrato com o banco da montadora é de leasing cambial. Todas as prestações estão fixadas em dólar, o que significa que a dívida cresceu na mesma proporção da desvalorização do real frente à moeda americana.
Nunca pensei que cairia numa armadilha como esta, desabafou o cabeleireiro, ontem à tarde. Ele disse que, se encontrar alguém interessado, dá o veículo de papel passado sem cobrar um só centavo do que já pagou. Minha vida tem sido só pensar numa forma de pagar este carro, pra falar a verdade, não estou nem dormindo direito, afirmou o cabeleireiro. Ele se diz injustiçado pelo governo federal, que, por várias vezes, garantiu que não mexeria na política cambial.
A idéia de comprar o carro surgiu há pouco mais de um ano. Os juros estáveis e o dólar valendo pouco mais que o Real, motivaram o cabeleireiro a optar pelo leasing cambial. Ele deu uma entrada de aproximadamente R$ 1,3 mil e tirou o veículo. Pelo contrato assinado, seriam 36 prestações de US$ 380. A última prestação, paga no dia 29 passado, foi de R$ 461,00. Ele calcula que a próxima parcela deve ficar em cerca de R$ 650,00.
Não tenho condições de pagar este valor; nunca pensei que cairia numa armadilha como esta, afirmou o cabeleireiro. Ele procurou o Procon e foi aconselhado a registrar uma queixa. As audiências começam na primeira semana de fevereiro. O problema é que a prestação vence antes disso, afirmou o cabeleireiro. Ele acha que o governo deveria intervir em casos como o dele. Afinal eu confiei no governo que disse que o real era forte.
A coordenadora do Procon de Londrina, Sheila Azzalini de Ângelo, disse ontem à tarde que a orientação para os consumidores com contratos em dólar é registrar a reclamação no órgão para tentar uma conciliação com os credores. Segundo a coordenadora, somente ontem cedo seis consumidores já haviam buscado orientações sobre os procedimentos. Há a possibilidade de se propor uma ação coletiva.Milton DóriaPedro Jesus Gomes, cabeleireiro: Não estou nem dormindo direitoPedro Livoratti





