Busca dos brasileiros por crédito recua 7,8% em 2014
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terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Cecília França<br>Reportagem Local 
A busca do consumidor brasileiro por crédito sofreu retração de 7,8% em 2014 frente ao ano anterior, informou ontem a Boa Vista Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC). Houve queda na demanda junto a instituições financeiras (-8,3%) e não financeiras (-7,6%), representadas, especialmente, pelo comércio varejista. Trata-se da maior retração registrada desde que a entidade iniciou a medição, em dezembro de 2011.
A expansão de crédito nos anos anteriores, de forma mais intensa entre 2009 e 2012, explica parte da retração em 2014, de acordo com o economista da Boa Vista SCPC, Flávio Calife, uma vez que o acesso mais difundido acabou por acarretar o surgimento da inadimplência e o endurecimento do acesso a financiamentos e outras modalidades de crédito.
"Houve um processo de aprendizado para tomadores e emprestadores; a partir de 2012 já tivemos alguma mudança no comportamento, com os agentes financeiros ficando mais seletivos", ressalta. Com juros elevados, crescimento mais lento da renda e expectativa de baixa expansão da economia, Calife acredita em estabilidade na demanda por crédito em 2015. Também há incerteza sobre o quanto as medidas tributárias anunciadas pelo Governo Federal irão impactar na confiança do consumidor.
"Pode ser que tenha uma retomada (do crédito), mas ainda bem tímida, lenta. Tem que começar a convencer o consumidor de que as medidas são necessárias", defende. Para o chefe do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Renato Pianowski, os brasileiros esperavam que o governo anunciasse corte de gastos e não "pacotaços" de impostos. Quanto à elevação da taxa básica de juros, que acaba por refletir no crédito, Pianowski espera que "o remédio surta efeito" e acalme a inflação, no entanto, indica outras medidas que seriam necessárias para melhorar o cenário.
"Não adianta se não tiver estímulo à produção interna. O governo está atrapalhando muito o empresário, o agricultor, o pecuarista - teria que diminuir impostos", opina. O economista da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Adilson Volpi, avalia que 2015 será um ano mais difícil que 2014, diante do baixo crescimento da economia e da queda nos investimentos por parte do setor produtivo, cujos reflexos atingem o consumidor.
Para Volpi, o recuo na demanda por crédito ocorre tanto pelo endividamento das famílias quanto pelo aprendizado do consumidor. "Todos nós já sentimos que os aumentos reais de salários foram menores e se você associar a isso a inflação, que aumentou, as pessoas têm um poder de compra menor", explica.
O economista destaca, ainda, que a inflação oficial divulgada atinge de forma diferente os brasileiros, podendo pesar mais para alguns, por isso, cabe ao consumidor avaliar a própria condição de endividamento antes de assumir novos créditos. "No Brasil a gente tem uma certa irracionalidade no uso do crédito, as pessoas olham o valor da prestação em cima do orçamento atual, mas assumem compromisso para 12 meses; tem que olhar o orçamento nesse período", explica.
Para ele, a proporção do impacto da elevação dos impostos na renda das famílias vai depender do comportamento da economia. "Se a economia não crescer, estamos no pior dos mundos; se crescer o impacto é menor. A prudência diz que as pessoas, antes de assumirem crédito, devem pensar, principalmente as já endividadas", finaliza.



