Gumisai Mutume
Inter Press Service
Do México
À meia-noite de hoje, computadores que usam dois algarismos para contar os anos interpretarão que se inicia o ano 1900 – é o chamado Bug do Milênio, que afetará serviços controlados por essas máquinas. Mas ignora-se que magnitude terá o problema no mundo. Agora só resta esperar...
Alguns dos transtornos causados por essa bomba do tempo chamada Bug do Milênio podem acontecer a partir da meia-noite de hoje no funcionamento de elevadores e aeroportos, no abastecimento de energia elétrica e nos centros de terapia intensiva dos hospitais, segundo os pessimistas. Os prognósticos sombrios já foram previstos e solucionados, fato pelo qual a mudança de data só poderia causar problemas importantes em um número pequeno de países.
Popularizou-se a denominação Y2K para se referir ao bug do milênio. Essa denominação significa simplesmente ‘‘ano 2000’’, empregando a inicial da palavra inglesa ‘‘year’’ (ano) e a K (de ‘‘kilo’’) como sinônimo de ‘‘mil’’. Por um erro de tradução, costuma-se falar do ‘‘vírus Y2K’’ ou ‘‘vírus do milênio’’. ‘‘Ao redor do mundo, a grande maioria das organizações, incluindo empresas e governos, só sofrerão pequenos prejuízos’’, assinala o último informe do Centro de Cooperação Internacional Y2K. ‘‘Graças à combinação de muitos esforços, o uso limitado de controles informáticos na maioria das infra-estruturas e a capacidade de adaptação das sociedades, o efeito negativo combinado dos problemas será moderado’’, explicou-se. O Centro de Cooperação foi criado pelas Nações Unidas em fevereiro com financiamento do Banco Mundial, e supervisiona nove setores de infra-estrutura em 197 países: Administração Pública, Alfândega e Imigração, Água, Alimentação, Energia, Finanças, Saúde e Hospitais, Telecomunicações, e Transporte.

France Presse

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No México, uma das maiores megalópoles do mundo, os funcionários confiam que depois de três anos de preparativos a maioria dos problemas possíveis tenha sido evitada. Foram substituídos cerca de 4 mil dos 12 mil computadores usados na administração do Distrito Federal desta cidade de dez milhões de habitantes, cujo trem subterrâneo, controlado por computadores, transporta a cada dia 4,3 milhões de usuários, a terceira quantidade mundial depois de Moscou e Tóquio. Os funcionários asseguram que os geradores alternativos próprios do trem subterrâneo são adequados para enfrentar um eventual apagão, mas se essa emergência acontecer o sistema não poderá funcionar com toda a sua capacidade.
No outro extremo do mundo em desenvolvimento, o Paquistão criou há um ano uma equipe para prevenir o bug do milênio, que trabalhou com apenas 12 pessoas e um orçamento de US$ 100 mil concedido pelo Banco Mundial. No pior das hipóteses, à meia-noite de 31 de dezembro poderia acontecer no Paquistão o fechamento dos aeroportos, falhariam os equipamentos dos hospitais que mantêm pacientes graves com vida, e a cidade sul-oriental de Karachi, que é a maior do país, ficaria às escuras, segundo os especialistas paquistaneses. Outro motivo de preocupação é que as autoridades da Aviação Civil paquistanesa não puderam solucionar até agora todos os problemas de seus computadores vinculados com a mudança de data.
Na Tailândia, uma pesquisa realizada entre companhias industriais de média escala, publicada na semana passada, revelou que a maioria estava mal preparada para o bug do milênio. Só uma das 100 fábricas inspecionadas por um centro patrocinado pelo governo havia tomado precauções adequadas. ‘‘A preparação da maioria das fábricas tailandesas continua sendo pobre’’, declarou Noppadon Moolsin, diretor do Centro para Acelerar Soluções do Y2K, do setor privado. Outra área problemática apontada pelo governo americano é o Oriente Médio, onde Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Oman e Catar, seis países que possuem mais da metade das reservas petroleiras mundiais, não se encontrariam bem preparados para o bug do milênio.
‘‘Além dos problemas econômicos e de segurança, é muito provável que haja pedidos de ajuda humanitária de países em desenvolvimento cuja infra-estrutura seja afetada pelo bug do milênio’’, disse o senador americano Robert F. Bennet, presidente da Comissão Especial sobre Problemas Tecnológicos do Y2K. ‘‘Como os Estados Unidos responderão a esse chamado? Temos os recursos, mas quem será ajudado primeiro? Para responder a essas perguntas precisamos desenvolver uma política que antecipe as demandas por problemas humanitários, estratégicos e econômicos do mundo’’, destacou.
A maioria dos países caribenhos afirma que seus principais setores terão resolvido problemas vinculados ao bug do milênio, segundo Corinne Barnes, diretora regional da IPS, da Jamaica. Barbados, Belize, Santa Lúcia e São Vicente e Granadinas criaram no ano passado comissões para prevenir o problema. As Ilhas Virgens Britânicas criaram uma comissão em fevereiro deste ano e o governo assegura que o país estará preparado. Bahamas também declara que tudo estará em ordem. ‘‘O que fazemos agora é trabalhar em planos de emergência, em especial para as áreas prioritárias do Estado. Em 31 de dezembro, como qualquer outra pessoa, veremos o que acontece à meia-noite’’, disse Carol Roach, do centro de Bahamas.
As autoridades da Jamaica sustentam que não haverá problemas, mas o Escritório de Previsão de Desastres e Administração de Emergência (ODPEM) desse país aconselha que todos disponham de uma caixa de primeiros socorros e que acumulem nas casas reservas de água para duas semanas. O abastecimento de água depende de sistemas que empregam eletricidade. O setor financeiro da Jamaica assegurou que não teria inconvenientes, mas a OPDEM advertiu que convirá dispor de dinheiro vivo e registrar os balanços e transações de forma manuscrita.
As autoridades da China determinaram que 31 de dezembro seja feriado. Segundo um anúncio do Conselho de Estado (organismo máximo do governo) isso será conveniente para resolver qualquer problema vinculado ao bug do milênio. No último dia do ano também não funcionarão os caixas automáticos. Na semana passada funcionários russos trataram de aplacar aqueles que temem que Moscou não esteja preparada, mas algumas embaixadas ocidentais, incluindo a americana, já enviaram a seus países de origem todos os funcionários prescindíveis.
Na África do Sul parece haver mais preocupação com os vírus de computador que com o bug do milênio. Analistas industriais esperam que pelo menos dois mil vírus se propaguem no período próximo à mudança de ano. Cidadãos da Nigéria acostumados a cortes de energia elétrica, paralisia da infra-estrutura, falhas nos bancos e escassez no abastecimento de água asseguraram que já experimentaram situações piores que qualquer pesadelo do Y2K. O centro coordenador da prevenção do bug do milênio solicitou US$ 200 milhões ao governo para resolver os problemas previstos e só recebeu US$ 1 milhão. Funcionários nigerianos admitiram que carecem de soluções para áreas primordiais. O governo indicou que os problemas estão resolvidos em 88% do setor de telecomunicações, 75% do de transporte, 50% do de agências governamentais e só 30% do setor militar. (IPS)

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