São Paulo - O técnico sai da sala de testes com a carcaça queimada do que foi um ursinho de pelúcia. ''Ele não era muito inflamável'', diz, rindo, após desligar uma espécie de maçarico. ''Mas não há nenhuma referência no produto de que material era feito e isso é muito ruim.'' O comentário foi sobre um ursinho comprado em um camelô das ruas de São Paulo. Esta semana, a reportagem da ''Agência Estado'' levou alguns brinquedos sem certificação, comumente encontrados em camelôs, para testes no laboratório Falcão Bauer, um dos órgãos autorizados pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) a testar a segurança de brinquedos no Brasil. Nenhum passou pelas exigências mínimas de segurança.
''A norma brasileira de segurança de brinquedos é uma das mais rígidas do mundo'', explica a gerente de qualidade do laboratório, Ana Maria Boveri. ''Os brinquedos que entram no País via contrabando não passam pelos testes e podem oferecer riscos à criança.''
Um trenzinho de pilha, por exemplo, tinha arestas excessivamente afiadas. Ao ser encostado em um material com a mesma espessura da pele humana, abriu um corte. ''A pessoa compra porque acha divertido e barato, mas depois pode ver seu filho cortado.''
Um carrinho que imitava o personagem principal do filme ''Carros'' também foi reprovado. Além de ser pirata, se partia em partes afiadas ao cair no chão de uma certa altura. O ursinho queimado, antes de passar pelo teste de inflamabilidade, teve os olhos e pernas puxados e soltou tufos de pêlos.
Pela norma, os brinquedos fabricados no Brasil ou importados devem ser submetidos a testes mecânicos, químicos e físicos antes de chegarem às lojas. Eles são esticados, queimados, quebrados, as partes pequenas são medidas, a embalagem é conferida para ver se há todas as informações para as crianças e os pais. Se for aprovado em todos, recebe um selo de um órgão certificador ligado ao Inmetro e do próprio instituto.
''Existem duas recomendações básicas para o consumidor escolher um brinquedo seguro: procurar o selo e comprar em lojas formais'', diz o diretor de qualidade do Inmetro, Alfredo Lobo. ''Em um brinquedo apreendido nas ruas, uma vez, encontramos níveis de chumbo 40 vezes acima do permitido por lei. Imagine o perigo de uma criança colocar isso na boca.'' A intoxicação por chumbo pode causar desde dores de cabeça até danos neurológicos.
São comercializados no Brasil cerca de 1,5 bilhão de brinquedos por ano. Desses, 60% são feitos no Brasil e 40%, em outros países, principalmente na China. ''Os fabricantes nacionais já estão acostumados com as normas e é raro ver algum brinquedo reprovado'', diz Ana Maria, do Falcão Bauer. ''Há mais problemas com os importados.''
A falha mais comum é de informação. Os brinquedos chegam ao Brasil sem instruções de uso ou indicação de idade. ''Tudo tem de ser explicado em língua portuguesa.'' Ela explica que problemas como excesso de metais pesados, brinquedo muito barulhento ou com partes que soltam, são raros. ''Mas acontecem, e são reprovados.''
Mudanças - A partir desta semana, todos os lotes que vierem de fora serão testados pelo Inmetro. Antes, empresas que importavam diversas vezes o mesmo brinquedo poderiam optar por testes de 4 em 4 meses. So no ano passado, foram apreendidos 66 mil brinquedos irregulares nas ruas de São Paulo.
Para o diretor de fiscalização do Procon-SP, Paulo Arthur Góes, após os processos de troca de brinquedos anunciados pela Mattel e pela Gulliver, já é hora de revisar a norma brasileira.
Marilena Lazzarini, coordenadora executiva do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), concorda. ''A norma brasileira é das melhores do mundo, mas sempre há espaço para melhorar.''

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