Apesar do incontestável domínio das grandes potências nas decisões sobre o comércio mundial nos últimos 50 anos, o Brasil já conseguiu interromper uma rodada de negociações que não atendia a seus interesses. Em 1990, durante a reunião do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt) em Bruxelas, a delegação brasileira, liderada pelo embaixador Rubens Ricupero, conseguiu convencer os demais países em desenvolvimento a abandonar a reunião, o que acabou suspendendo as negociações. Bruxelas seria a última reunião da Rodada Uruguai, que havia começado em 1986. O problema era que, até aquele momento, a liberalização agrícola principal objetivo do Brasil sequer fazia parte da agenda.
Nos momentos finais da reunião em 1990, o embaixador Ricupero passou de sala em sala, às 2 horas da madrugada, convencendo os negociadores de que não poderiam continuar a debater as novas regras do comércio internacional sem que a agricultura estivesse presente. A reação dos países desenvolvidos foi muito parecida com a que até hoje tentam usar para convencer as economias pobres a aceitar um acordo que lhes desfavorece: o abandono das negociações poria em risco o sistema multilateral de comércio.
A ''virada de mesa'' do Brasil em 1990 obrigou a comunidade internacional a negociar a Rodada Uruguai por mais quatro anos. O problema é que, quando o acordo foi finalmente aprovado, a liberalização agrícola acabou não ganhando o peso que o Brasil pretendia e hoje, quase dez anos depois, os países em desenvolvimento continuam sofrendo com as barreiras nos mercado centrais.

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