OPINIÃO
Bretton Woods: foi
quando tudo começou
Hamil AdumExistem acontecimentos que são realmente históricos, no sentido de mudarem o curso da história. Assim foi quando do advento do cristianismo; ou da queda de Constantinopla; ou da destruição de Cartago por Roma; ou, ainda, a tomada da Bastilha; a desintegração do átomo, responsável pela extraordinária revolução tecnológica, ainda em curso; e, mais recentemente, a queda do muro de Berlim.
Mas a mim interessa por ora, e mais particularmente, a conferência de Bretton Woods, Estados Unidos, de cujo bojo sairia, como saiu, o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 1946.
O cérebro nessa conferência fou John Maynard Keynes. Quem foi Keynes? Um desses aristocratas convictos, formado em Cambridge e, sem dúvida, um grande economista, e personalidade marcante na Inglaterra, quiçá do mundo.
Diga-se, a bem da verdade que, no início daquela conferência, Keynes se opunha à tese da transformação do dólar, em moeda-padrão internacional. Todavia ele não se sustentaria nessa posição. Tanto assim que, de maneira surpreendente, e já no final da conferência, passou a admitir o dólar como moeda-padrão internacional.
Até que, e bem posteriormente, ou seja, em 1971, Nixon extinguiu unilateralmente o padrão ouro, com o dólar, daí para a frente, impondo-se com verdadeiro algoz da nações, dadas as emissões discricionárias dessa moeda pelo governo americano.
Se a princípio falava-se em bilhões de dólares, agora passa-se a falar, sem pestanejar, em trilhões, com os Estados Unidos transformados em verdadeira usina geradores dessa moeda.
Tanto assim que, conforme Hélio Fernandes, ‘‘hoje existem cinco dólares fora dos Estados Unidos para cada dólar no país’’. Imagine-se agora o que acontecerá quando o dólar deixar de ser a moeda de livre curso internacional. Evidente que os dólares no exterior refluirão para sua pátria de origem, isto é, os Estados Unidos. Fácil então que esse país, abarrotado de dólares, conhecerá a mais terrível inflação jamais existente.
Percebe-se agora, caro leitor, o porquê da resistência desesperada de Washington para que não se reverta a situação presente de dominação imperial do mundo pelo dólar, retornando-se a uma nova Bretton Woods, com a adoção do ‘‘banco’’, como originalmente se pretendera, este sim, uma espécie de moeda neutra, acima de todos os países e servindo a todas as nações, e não como vem ocorrendo com o dólar, moeda vinculada a um país, possibilitando-lhe a hegemonia mundial na segunda metade do século 20.
Não é de admirar, portanto, nem de surpreender, que os Estados Unidos desfrutem da condição de nação mais poderosa do planeta, seja econômica ou militarmente.
Veja o leitor o que pode uma moeda quando transformada em moeda padrão internacional. Ela leva à total hegemonia dessa nação, transformando-a facilmente numa espécie de gendarme (polícia) da ordem internacional. É o que vêm fazendo os Estados Unidos, e só não o enxergam aqueles que têm interesses escusos vinculados a essa situação.
Mas há uma outra face em tudo isso, e já o fiz ver anteriormente, e que não deixa de perturbar o governo americano: a possibilidade, e até mesmo a probabilidade, de uma nova Bretton Woods, com o restabelecimento de uma nova ordem econômica e financeira mundial, pondo termo a essa imoral e avassaladora predominância da moeda americana sobre todos os países.
Quando isso ocorrer, e os trilhões de dólares americanos no exterior, reverterem ao país de origem, atolando os Estados Unidos numa inflação pior do que a que conheceu a Alemanha, depois de 1914-1918, nesse dia (bendito santo Deus, ele há de chegar), e valho-me, novamente, de Helio Fernandes ‘‘estará resolvido o pagamento da dívida externa do Terceiro Mundo: cada país devedor trocará um carrinho de mão de sua moeda nacional por um caminhão do lixo de dólar.’
Os Estados Unidos estarão esborrachados. Oxalá!
Impossível? Só para que não conhece a História. Grande impérios, até mais poderosos que os Estados Unidos, sumiram na voragem do tempo.
A única questão é saber-se o que virá realmente depois. Quem ocupará o vácuo deixado pelos Estados Unidos? A China, a Índia, o Japão – e, por que não? – o Brasil, já que ele dispõe de todas as potencialidades para tornar-se uma grande potência? Ou será que a ‘‘bola da vez’’ é o Oriente? Quem o sabe? O futuro a Deus pertence...
- HAMIL ADIM é ex-professor da Universidade Estadual de Londrina

mockup