As gratificações por cargo, os auxílios-moradia e, em casos escusos, as comissões ou aquele famoso dinheiro por fora, além do alto custo dos serviços cobrados por advogados e lobistas e a presença de políticos de baixo e alto escalões, embaixadores e diplomatas elevaram Brasília à condição de capital com a maior renda per capita do País, de acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Enquanto, por exemplo, a renda média de 739 lares pesquisados pela FGV na capital federal chegava a 23,83 salários mínimos, entre janeiro e outubro de 2000, quando foram realizadas as entrevistas, o rendimento de 796 famílias pesquisadas em Salvador, a capital baiana, chegava a modestos 6,06 salários mínimos.
O chefe do Centro de Estudos de Preços da FGV, que comandou a pesquisa, Paulo Sidney de Melo Cota, aponta, além dessas explicações, o fato de a pesquisa em Brasília se restringir aos moradores do núcleo da capital para justificar o resultado. Ou seja, o Plano Piloto da cidade projetada pela dupla Oscar Niemeyer-Lúcio Costa, que empurrou para a periferia as chamadas cidades-satélites, aqueles trabalhadores de mais baixa renda e até servidores exercendo funções auxiliares.
Ele evita a comparação dos dados de São Paulo e Rio com o de dez outras capitais – Brasília, Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Recife e Salvador –, que agora passarão a integrar o cálculo de inflação da FGV porque a última POF realizada nessas duas capitais teve os dados coletados em 1997/98.
A POF serve de base para que a FGV faça os cálculos de inflação e ponderação dos dados que compõem os indicadores que integram, por exemplo, o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M).
Exclusão Para o economista Raul Veloso, um dos mais respeitados pesquisadores da área fiscal e professor da Universidade de Brasília (UnB), a POF reflete uma situação real e excludente de Brasília. Real, explica ele, porque o funcionalismo público, especialmente aquele que reside no Plano Piloto da capital brasileira, tem mantido um alto padrão de rendimento e moradia, muitas delas funcionais. ‘‘O salário do funcionalismo ficou sem reajuste desde o Plano Real, mas para aquelas profissões específicas, de profissionais mais graduados, foram criadas gratificações que incidem porcentualmente sobre o salário.’’
‘‘O Plano Piloto de Brasília é excludente, porque sem levar em conta as cidades-satélites é uma ilha de prosperidade’’, afirma.
Quando o assunto é educação, leitura e recreação, Brasília mostra que tem uma qualidade de vida melhor em relação a outras capitais. Esse item de bom viver ou de futuro mais próspero por meio da educação chega a comprometer 15,9% da renda das famílias brasilienses, muito acima da média do País, de 9,22%, que em Belo Horizonte chega a 8,85% e em Salvador a 8,26%.

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