Brasileiros mudam hábitos de consumo
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sábado, 14 de julho de 2007
Márcia De Chiara<br>Agência Estado 
São Paulo - Os hábitos de consumo do brasileiro mudaram. Ele está comendo mais fora de casa, usando com maior frequência o transporte individual, adquirindo mais bens duráveis e gastando uma fatia maior da renda com educação e saúde. Queda da inflação, aumento da participação da mulher no mercado de trabalho, crédito facilitado e mudança de preços relativos da economia, com aumento dos serviços e recuo dos alimentos, bens duráveis e semiduráveis, explicam as mudanças.
Isso é o que mostra uma radiografia feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a partir da Pesquisas de Orçamento Familiar (POF) de 1988 e de 2003, apresentada no livro ''Gasto e Consumo das Famílias Brasileiras Contemporâneas''. Em 1988, por exemplo, as famílias gastavam 26,6% do orçamento com alimentação fora de casa. Quinze anos depois, em 2003, essa fatia tinha aumentado para 30%. Nesse mesmo período, houve uma queda de 19,5% para 16,3% da alimentação como um todo nas despesas das famílias.
''Na próxima POF, que começa ser feita em outubro, essa tendência deve se acentuar'', observa o pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e consultor do Ipea para esse projeto, Bernardo Campolina. Ele argumenta que a maior participação da mulher no mercado de trabalho contribuiu para isso. De acordo com a última POF, 54% das mulheres cônjuges ou chefes de família trabalham fora.
A maior preocupação em ganhar tempo reduziu o consumo doméstico de alimentos que demoram para serem preparados e aumentou a demanda da comida pronta para consumo. Entre 1988 e 2003, caiu 42,4% o consumo per capita de arroz dentro dos lares e 23,9% o de feijão. No mesmo período, cresceu 307,6% o consumo per capita de alimentos preparados no domicílio; 192,3% o de refrigerantes e 163,6% o de iogurte.
Um dado que confirma essa mudança de hábito é o desempenho da indústria de food service, que fabrica insumos para restaurantes e lanchonetes, entre outros. Esse foi o segmento que mais se destacou no setor alimentício, com crescimento de 203,5% nos últimos dez anos, enquanto o varejo de alimentos cresceu 95,2%, segundo estudo da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia). Só no ano passado, o mercado de food service aumentou 12,3%, o equivalente a cinco vezes o acréscimo registrado no varejo de alimentos para consumo no domicílio.
O maior gasto com o transporte individual entre as camadas de menor renda é o outro ponto de destaque do estudo do Ipea. Os 10% das famílias mais pobres, que empenhavam 1,21% do orçamento com a manutenção do veículo próprio em 1988, passaram a gastar 2,55% em 2003. No sentido inverso, os 10% das famílias mais ricas diminuíram de 9% para 7,4% o desembolso no período.
''Há quinze anos, era muito difícil comprar um carro novo'', observa Campolina. Mas a abertura do mercado para os produtos importados forçou a queda nos preços. Além disso, com a estabilização da moeda, o crédito de longo prazo deixou a compra do veículo mais compatível com o orçamento. Hoje é possível adquirir um carro novo em até 72 meses.
Esse movimento ganha contornos mais nítidos quando se avalia o desempenho da indústria automobilística. O mercado interno deve absorver neste ano 2,35 milhões de carros, segundo as novas projeções da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
As facilidades para comprar um veículo se repetem para outros bens duráveis, como geladeiras, fogões e máquinas de lavar, por exemplo. Esse fator, aliado à queda nos preços, impulsionou a aquisição de bens duráveis, especialmente entre as camadas mais pobres.


