Comerciantes brasileiros fecharam ontem a Ponte Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú, na Argentina, em protesto contra as medidas restritivas adotadas pelo governo Fernando de la Rúa, nas regiões de fronteira. A Argentina impôs novas regras para as pequenas importações de produtos procedentes do Brasil. A restrição é uma tentativa de fortalecer a frágil indústria local, obrigando os moradores de cidades fronteiriças a consumir mercadorias nacionais.

Desde a semana passada, os moradores argentinos estão proibidos de comprar bens duráveis como móveis, eletrodomésticos e material de construção no Brasil. Antes havia um limite de compras para esses produtos de US$ 150. A cota mensal de compras de alimentos nos supermercados brasileiros de US$ 100 foi reduzida para US$ 50. Os manifestantes querem o fim das restrições. Caso contrário, ameaçam manter o bloqueio por tempo indeterminado.

Ontem de manhã, uma comissão, encabeçada pelo vice-prefeito de Foz do Iguaçu, Claúdio Rorato, vereadores e comerciantes brasileiros, se reuniu com o prefeito de Puerto Iguazú, Tiomóteo Ilera, para tentar negociar uma saída para o impasse. As reivindicações foram oficializadas em um documento, que será encaminhado para o governo argentino. O prefeito de Puerto Iguazú se comprometeu a mediar uma tentativa de acordo.

As medidas restritivas foram adotadas no último dia 14. O maior impacto é no comércio da Grande Porto Meira, que tem 80% das vendas voltadas para os argentinos. O bairro reúne cerca de 250 pontos comerciais. O presidente da Associação de Desenvolvimento do Porto Meira, Afonso Brizola, diz que as medidas podem levar o bairro inteiro à falência. A queda nas vendas, segundo ele, chega a 70%. ''Sem os clientes argentinos, a única alternativa é fechar as portas e demitir os funcionários'', avalia.

Outro comerciante indignado com a decisão do governo argentino é José Cabral, dono de uma rede de lojas de material de construção no Porto Meira. Apesar da medida ter entrado em vigência há uma semana, ele diz que já teve de fechar uma filial e remanejar cinco funcionários para a loja principal, por causa da restrição.

O bloqueio teve início por volta das 7 horas. A manifestação reuniu cerca de 150 pessoas. Muitas lojas não abriram em Porto Meira e liberaram os empregados para reforçar o protesto. Os manifestantes bloquearam o acesso a aduana com pneus e caminhões. Só as pessoas doentes ou grupos de turistas com viagens programadas ou passagens já compradas foram liberados.

Não houve grandes congestionamentos. Muitos motoristas preferiram voltar para Foz do Iguaçu e outros aguardar a liberação da ponte estacionados no acostamento. Em dias normais, trafegam pelo local cerca de mil veículos. Esse é o terceiro protesto realizado este ano na Ponte Tancredo Neves e o segundo que resultou no bloqueio da fronteira. Em julho, a Argentina já havia ampliado as restrições e horários de compras em supermercados brasileiros. Há duas semanas foi a vez dos motoristas argentinos protestarem contra a contratação de mão-de-obra estrangeira para o transporte de cargas no país.

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