Brasileiros e argentinos usam Uruguai como refúgio
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2001
Ariel Palacios<Br>Agência Estado 
A coroa portuguesa, que fundou no século XVII a cidade de Colonia de Sacramento (no atual Uruguai) para conter os espanhóis que estavam do outro lado do Rio da Prata, em Buenos Aires, nunca poderia ter imaginado que ela serviria de refúgio, mais de trezentos anos depois, para as economias de dezenas de brasileiros que moram em Buenos Aires.
Nas últimas três décadas, diante das turbulências econômicas na margem sul do rio, milhares de argentinos foram abrir contas bancárias em Colonia e Montevidéu, para colocar seus dólares a salvo das caótica política econômica do governo. O caminho dos argentinos, foi seguido por alguns brasileiros que trabalham em Buenos Aires. Calcula-se que só entre janeiro e novembro, US$ 1,3 bilhão de argentinos teriam sido depositados nos bancos uruguaios.
No último sábado, assustado com o rumor de falência da casa matriz de um banco argentino com sucursal em Colonia, um executivo brasileiro residente em Buenos Aires atravessou o rio da Prata para buscar suas economias. Os bancos em Colônia costumam funcionar nos sábados, para atender esta clientela especial.
A Agência Estado acompanhou este brasileiro, que junto com um grupo de sete pessoas, entre elas argentinos e vários outros estrangeiros, iam pelos mesmos motivos ao Uruguai. O barco que atravessa o rio em uma hora, estava abarrotado de dois tipos de pessoas: os que iam guardar o dinheiro que haviam conseguido salvar do semi-congelamento de depósitos do ministro da Economia, Domingo Cavallo, além daqueles que estavam sem dinheiro cash em Buenos Aires, e iam buscar dólares para sobreviver mais umas semanas ao congelamento.
Depois de retirar seus dólares, o cidadão brasileiro tentou tomar um cafezinho em um bar da Avenida General Flores, pagando com pesos argentinos. Esta moeda sempre foi aceita no Uruguai, devido ao imenso fluxo de turistas argentinos que anualmente invadem este país. Mas isto já é coisa do passado: ''lo siento, pesos argentinos, no'' (sinto muito, pesos argentinos, não), disse o garçom. Os uruguaios também estão desconfiados sobre o peso argentino, e só o aceitam em troca de um câmbio três vezes superior ao que existia na semana anterior.
Durante as cinco horas que permaneceu em Colonia, o peso desvalorizava-se rapidamente em Buenos Aires. No mercado negro, o dólar passava de 1,40 pesos para 1,80 pesos. Durante os dez anos anteriores, um peso havia sido equivalente a um dólar. Mas isto também era coisa do passado.
Enquanto isso, na capital argentina, os assessores de Caetano Veloso - que está se apresentando no teatro Gran Rex - vislumbravam uma saída para um impasse surgido nos últimos dias. No meio da semana, tudo indicava que o cantor sofreria as medidas de Cavallo, que impedem que qualquer pessoa, seja nativo ou estrangeiro (residente ou turista) saia do país com mais de US$ 10 mil.
No entanto, nas últimas horas o governo se mostrava disposto a permitir que o cantor saia com 50% da bilheteria, enquanto que o restante 50% ainda estava sendo negociado, e poderia ser enviado através de um banco brasileiro.
Mas as empresas brasileiras instaladas aqui não teriam a mesma sorte.
Há uma semana não conseguem enviar dinheiro para o Brasil. Cavallo estipulou que qualquer envio de uma empresa acima de US$ 10 mil terá que passar pelo crivo do Banco Central, que o poderia liberar depois de uma solicitação.
O problema das empresas brasileiras não foi a folclórica tramitação burocrática que assola o Estado argentino desde sua criação em 1810, e que poderia demorar o envio em vários dias. Não. O problema era mais prosaico, e demonstra a improvisação das medidas de Cavallo: o BC sequer ainda preparou os formulários para o envio de remessas.


