Brasileiros compram gasolina na Venezuela
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domingo, 11 de dezembro de 2005
Lourival Sant Anna<br>Agência Estado 
Santa Elena de Uairén, Venezuela - O sol do meio-dia castiga Santa Elena de Uairén, na Venezuela, e esquenta o asfalto da avenida que corta o povoado, separando os dois postos de gasolina e as seis filas que correspondem a cada um: táxis venezuelanos e brasileiros, carros comuns dos dois países, caminhões e veículos com prioridade. Regina Sônia, que chegou às 7 horas com seu Fiesta com placas de Boa Vista, é a número 19 dos carros comuns brasileiros. Às 12h20, ouve colegas de fila chamarem o número 19. ''A fila andou'', sai correndo, eufórica, com sua filha Jéssica, de um ano e meio, no colo, para entrar no carro. Mas um táxi Santana brasileiro atravessa na frente, sob o olhar complacente dos soldados venezuelanos. ''Essa é a nossa vida'', diz Regina. ''Os que pagam propina, passam na frente, mas não tenho dinheiro para isso.'' Desempregada, 38 anos, mãe de três filhos, Regina conta que não tem outro modo de sustentar a família, a não ser vindo comprar gasolina na Venezuela para vender no Brasil.
Regina não está sozinha. Na manhã de sexta-feira, 532 veículos, entre carros e caminhões, brasileiros e venezuelanos, disputavam cada palmo das quilométricas filas dos postos de Santa Elena, de 20 mil habitantes. Eles são atraídos todos os dias pela gasolina a 70 bolívares por litro (R$ 0,07) e o diesel a 48 bolívares (R$ 0,05), vendidos na Venezuela. Para os carros brasileiros, os preços são um pouco mais altos: R$ 0,20 e R$ 0,18, respectivamente. Mesmo assim, a lucratividade do contrabando é brutal.
Os venezuelanos vendem a gasolina em Santa Elena para contrabandistas brasileiros, por R$ 1,00, lucrando R$ 0,93 por litro. Seus Malibus, Caprices, Conquistadores, Landaus, Dodge Darts e Firelands, relíquias americanas dos anos 50 a 70, geralmente caindo aos pedaços e apelidados pelos brasileiros de ''carros-balsa'', costumam vir com tanque original de 120 litros, mas não é difícil encontrá-los ''adaptados'' em Santa Elena com tanques de 170 litros. Assim, uma abastecida por dia rende no mínimo R$ 111,60. Nada mal, para um país cujo salário mínimo é de R$ 400 mensais.
Os brasileiros se encarregam de atravessar a fronteira com a gasolina, seja pela própria alfândega, onde só é confiscado combustível em frascos fora do tanque, ou pelas sinuosas estradas de terra que levam de um país ao outro, sem qualquer controle. Em Boa Vista, a capital de Roraima, a gasolina custa entre R$ 2,80 e R$ 2,90 nos postos, e é vendida por R$ 1,80 a R$ 2,00 pelos contrabandistas, com 100% de lucro.
Os dois postos de Santa Elena, um povoado com pequeno consumo local, vendem mais de 2 milhões de litros de gasolina por mês - metade para os brasileiros e a outra metade para os venezuelanos. Coincidentemente, o presidente do Sindicato dos Postos de Boa Vista, Abel Galinha, estima que o comércio clandestino de gasolina na capital de Roraima alcance 2 milhões de litros por mês - 45% do mercado.


