Brasileiros apostaram R$ 886 milhões em bets durante a Copa
Placar criado por empresa de open finance contabiliza mais de 461 mil jogadores desde 11 de junho
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Placar criado por empresa de open finance contabiliza mais de 461 mil jogadores desde 11 de junho

Desde o primeiro dia da Copa do Mundo, em 11 de junho, até a tarde da última terça-feira (14), os brasileiros já haviam enviado mais de R$ 886 milhões para casas de apostas. O valor médio diário por apostador foi de R$ 211, 12% acima do usual.
Os números, atualizados em tempo real pelo Placar das Bets, criado pela empresa de open finance Klavi, são preocupantes do ponto de vista financeiro porque analistas observam um aprofundamento do endividamento das famílias brasileiras desde a popularização das apostas on-line no país. Mas os dados também ajudam a explicar o crescimento das doenças psíquicas que vêm no rastro das dívidas e que têm levado muitos apostadores e familiares a procurarem apoio médico e psicológico.
Atualizado diariamente, o Placar das Bets mapeou 104 casas de apostas com base nas movimentações financeiras de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas, volume correspondente a 10% dos usuários do sistema financeiro aberto, que autorizaram o compartilhamento de suas informações.
A partir dessa amostragem, o estudo identificou que 38,4% enviaram dinheiro para casas de apostas durante a Copa, somando quase 461 mil pessoas. Apenas no dia 13 de julho, foram R$ 19,8 milhões em apostas. Em um intervalo de 30 dias, entre 9 de junho e 9 de julho, o gráfico desenhado pelo Placar das Bets mostra uma trajetória ascendente, com picos em dias de jogos do Brasil.
O levantamento também faz um ranqueamento por unidades da federação. No acumulado do período da Copa do Mundo, o Tocantins tem o maior índice de apostadores, com 45,2%, seguido por Acre (44,5%) e Mato Grosso (44,3%). O Paraná está em sexto lugar, com 41,4% dos usuários de bets e lidera entre os estados da Região Sul.
No recorte por gênero e renda, o Placar das Bets mostra que os homens formam a maioria dos apostadores, com 63%, e as classes A e B constituem a maior parcela. Dentro da amostra de 1,2 milhão de pessoas, entre os classificados como renda alta, 52% fizeram apostas on-line desde o início do campeonato mundial. Entre a Classe B, o percentual foi de 43%, na classe C, o índice foi de 38% e nas classes D e E, 28%.
Vale salientar, no entanto, que com uma base composta por usuários do open finance, cuja adesão é voluntária, pode haver sub-representações, especialmente pela menor participação da população com renda mais baixa.
Os números levantados pelo Placar das Bets vão de encontro aos resultados da pesquisa Comprometimento de Renda e Inadimplência da Família Londrinense referente ao segundo trimestre de 2026, realizado pelo NuPEA (Núcleo de Pesquisas Econômicas Aplicadas) da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná). Segundo o estudo, 91,4% das famílias londrinenses possuíam algum comprometimento de renda, 36,2% afirmaram estar com alguma conta em atraso e 42,8% admitiram que conseguiriam quitar as dívidas apenas parcialmente ou não conseguiriam.
As dívidas com bets não constam do estudo do NuPEA, mas chamaram a atenção dos pesquisadores os 25,2% de pessoas com compromissos financeiros assumidos que classificaram o tipo de dívida na categoria “outras dívidas”. Esse grupo ficou atrás apenas das dívidas com cartão de crédito (53,8%) e superou as prestações da casa (13,1%) e do carro (4,9%).
“O crescimento das apostas esportivas representa uma preocupação crescente do ponto de vista econômico porque introduz uma nova pressão sobre um orçamento familiar que já se encontra bastante comprometido”, disse o economista e coordenador do NuPEA, Marcos Rambalducci.
Os resultados do estudo apontam que a maioria das famílias tem pouca margem no orçamento. “Nesse cenário, qualquer gasto recorrente passa a disputar espaço com despesas essenciais, como alimentação, moradia, saúde, transporte e educação.”
Embora a pesquisa não identifique as apostas esportivas como uma categoria específica, ressaltou Rambalducci, o NuPEA já vinha observando o crescimento do grupo "outras dívidas", categoria na qual esse tipo de despesa tende a ser registrado. “É um indicativo de que as bets passaram a fazer parte da realidade financeira de muitas famílias.”
Esse quadro é potencializado pela Copa do Mundo porque associa o ambiente das apostas ao futebol, um dos maiores símbolos culturais e afetivos do país, afirmou o Idec (Instituto de Defesa do Consumidor). Essa associação contribui para transformar a prática de apostar em algo percebido como parte natural da experiência de torcer, especialmente entre jovens e consumidores mais suscetíveis a comportamentos impulsivos. “Estimular as apostas, no calor das partidas, favorece um modelo de consumo baseado em forte emoção, com pouco espaço para prudência ou avaliações”, pontuou o Idec em artigo publicado em seu site.
O instituto também vê como preocupante a banalização dos riscos econômicos e psicológicos relacionados às apostas on-line e vem alertando que tanto o mercado de apostas quanto o discurso publicitário atrelado a ele não se responsabilizam pelos efeitos concretos já identificados no país, como superendividamento e o comprometimento da renda familiar.
Na definição do Idec, as bets são “um modelo de negócio baseado no design do vício, que contribui diretamente para comportamentos compulsivos, gerando impactos relevantes à saúde mental”.
O grande risco do crescimento do volume de apostas, segundo o coordenador do NuPEA, é que elas não constituem investimento nem geram patrimônio. Pelo contrário, muitas pessoas acreditam que podem recuperar perdas ou complementar o orçamento realizando novas apostas, criando um ciclo que aumenta o comprometimento da renda e eleva o risco de inadimplência.
O mercado das bets e o impacto silencioso na saúde mental
Conforme crescem as apostas on-line e o endividamento decorrente delas, aumenta também o movimento de combate a essa prática. Nas redes sociais, chocam os depoimentos de pessoas que perderam o controle nas apostas ou de familiares de jogadores. Há relatos sobre depressão, ansiedade, práticas de crimes e suicídio.
O psicanalista e colunista da FOLHA, Sylvio do Amaral Schreiner, enxerga um fundamento comum entre o vício em apostas e outras dependências, como a de substâncias químicas. Todas elas compartilham a dificuldade de lidar com a dor psíquica, substituindo vínculos reais por objetos previsíveis e disponíveis.
Mas ao contrário da dependência química, o vício nas bets não anestesia, excita, produzindo um resultado comum a ambos: o empobrecimento da vida psíquica. “O dependente químico busca o torpor; o apostador busca continuar jogando, numa repetição que o faz sentir triunfo sobre a realidade”, pontuou Schreiner.
Cada derrota se transforma em combustível que impulsiona a busca pela compensação das perdas anteriores. “O apostador não parece um dependente, parece um torcedor. A dependência se esconde dentro do amor ao futebol, o que retarda o reconhecimento do problema.”
Quebrar o ciclo exige suportar a perda como perda. “Fazer o luto do dinheiro que se foi, em vez de negá-lo com a próxima aposta. Enquanto a perda for vivida como algo reversível, o jogo continua. Quando ela pode ser sentida, chorada, pensada, quando dói de verdade em vez de ser imediatamente apostada, abre-se a primeira saída. Isso raramente se faz sozinho.”
Quando se traça o perfil dos apostadores, embora os homens entre 18 e 50 anos de idade ainda sejam a maioria, o vício começa a crescer entre adolescentes e idosos. “Ambos atravessam momentos em que a identidade está em obra, seja porque ainda se constrói, seja porque começa a se desfazer”, disse Schreiner. Enquanto os adolescentes são movidos pela urgência, pela dificuldade de adiar a satisfação e pelo desejo de pertencimento, o idoso tenta curar uma outra ferida, a do desamparo e da invisibilidade. “A aposentadoria retira não só a rotina, mas o sentimento de utilidade”, afirmou o psicanalista. “O jogo entra como preenchimento de um vazio.”
E entre os idosos, há um agravamento prático. Eles possuem reservas de uma vida inteira e o prejuízo, quando vem, é irrecuperável. “Não há tempo para reconstruir o que se perdeu.”
Por se tratar de um vício silencioso, que não deixa marcas físicas, amigos e familiares devem ficar atentos à ausência psicológica, às oscilações bruscas de humor, mentiras e pedidos de pequenos empréstimos. A situação de codependência é uma realidade entre pessoas que acabam financiando o vício ao tentar salvar o apostador de suas consequências financeiras imediatas, pagando dívidas ou escondendo o jogo.
“O trabalho terapêutico com a codependência tem uma direção que costuma surpreender: cuidar do familiar como paciente, não como auxiliar do tratamento do outro”, salientou Schreiner. “Quando a família se trata, o apostador perde sua rede invisível de sustentação e ganha, muitas vezes pela primeira vez, um motivo real para procurar a sua ajuda.”
Ferramentas de autoexclusão, como o Autoteste do Ministério da Saúde, são úteis para aproveitar os breves momentos de lucidez do dependente, permitindo que o “eu saudável” legisle sobre o “eu compulsivo”, mas não substituem o tratamento clínico que irá trabalhar a capacidade de lidar com a frustração, sustentou Schreiner.
O psicanalista também defende a necessidade de políticas públicas. “O divã não compete com um algoritmo criado para capturar a atenção de milhões, nem com uma publicidade que coloca ídolos nacionais a serviço das casas de apostas. Quando o adoecimento é produzido em escala industrial, a resposta precisa ter escala pública. O papel das políticas públicas é, antes de tudo, reequilibrar uma disputa desigual.”(S.S.)

Novas regras fecham o cerco contra publicidade e empresas ilegais
O governo federal anunciou, na quinta-feira (9), as novas regras para publicidade de apostas on-line. Uma das portarias, publicada na sexta-feira (10), estabelece que toda publicidade de bet será acompanhada de uma advertência em nome do Ministério da Fazenda, semelhante ao que já acontece com propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas.
Outra portaria, em conjunto com o Ministério da Justiça, terá medidas contra as empresas de bet que atuam na ilegalidade. Veículos de comunicação estão proibidos de veicular empresas não autorizadas a operar no mercado.
Com as portarias, o Ministério da Fazenda proíbe as casas de aposta de criarem senso de urgência, apresentar apostas como investimento ou solução para problemas financeiros, mostrar ganhos ou histórico de premiações como incentivo e induzir o consumidor a erro.
A nova regulamentação alcança também os comentaristas e especialistas que ficarão proibidos de incentivar a prática. "Nada de exibir ganhos como isca, nada de vender aposta como ganho de dinheiro fácil, de investimento ou solução financeira para as famílias", disse o ministro da Fazenda, Dario Durigan.
As penalidades para quem descumprir as regras são multas que podem chegar a 20% do faturamento da empresa que opera a bet e suspensão por 180 dias. Em caso de reincidência grave, pode haver cassação da autorização para atuação no mercado de apostas on-line.
Quem veicular publicidade irregular de bet poderá ser multado em até R$ 14 milhões.
Segundo Durigan, 56 mil sites de apostas já foram derrubados pelo governo e quase mil perfis de influenciadores também. O governo exigiu a autoexclusão de quase um milhão de apostadores, por estarem em desacordo com as restrições previstas em lei.(S.S.)


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


