Em seu primeiro pronunciamento após assumir o comando da OMC (Organização Mundial do Comércio), nesta segunda-feira (9), o brasileiro Roberto Azevêdo disse que o mundo atravessa um "momento crucial", referente à economia global, além de sinalizar reformas no órgão para que ele cumpra melhor o desafio de estimular o livre comércio.

"Muitas economias ainda estão lutando para se recuperar dos efeitos da crise financeira. Enquanto isso, outras continuam emergindo, formando novas relações de comércio e fundamentalmente mudando o panorama da economia mundial", afirma Azevêdo.

Em um apelo por disposição política aos 159 Estados-membros da OMC, Azevêdo disse que "o mundo não vai esperar pela OMC e vai seguir adiante sem a entidade". O alerta foi seguido por promessas de reformas e de diálogo, sem detalhamento. "Não posso elaborar mais agora, faremos isso no momento apropriado. Agora temos que focar em Bali", acrescentou, mencionando a próxima reunião ministerial da OMC, marcada para dezembro na Ilha de Bali, na Indonésia.

Segundo ele, alternativas e propostas serão apresentadas, primeiro, para consultas dos Estados-membros. "Temos que ser cuidadosos, muitas vezes uma boa ideia morre devido à maneira como ela foi dirigida", explicou.

Doha
O "momento crucial" ao qual se referiu Azevêdo remete ao futuro da própria OMC. A organização enfrenta um período no qual cresce o número de países que buscam alternativas próprias de comércio, geralmente na forma de acordos bilaterais fora do âmbito da instituição.

Além disso, as negociações da rodada Doha de liberalização do comércio global (que começou em 2001 e tinha término original previsto para 2006) continuam travadas. Existe grande expectativa de que a reunião em Bali, em dezembro, mude esse cenário. O debate sobre subsídios agrícolas, porém, emperra os acordos entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Azevêdo defendeu que a solução está no diálogo e na aliança entre os países. "Se você quer lutar contra o protecionismo, você tem que negociar, dialogar. Temos que trabalhar juntos para mudar este cenário." Para tanto, o chefe da OMC indicou que iniciará "imediatamente" um diálogo com os países-membros com o objetivo de criar condições para um acordo em Bali.

"O tempo é curto. Nosso trabalho precisa começar aqui e agora. É por isso que vou dar início a consultas intensas com os países-membros imediatamente, começando nesta semana. Elas acontecerão em vários formatos e configurações no nível de embaixadores. Vamos ter como foco as três áreas-chave, as de facilitação de comércio, desenvolvimento e agricultura."

Apoio brasileiro
Em maio, Azevêdo foi eleito diretor-geral da OMC, após derrotar o ex-ministro do Comércio mexicano Hermínio Blanc. Ele se tornou o primeiro latino-americano a chefiar a entidade desde sua criação em 1995. O Brasil, no entanto, mantém a política de o governo ter um forte papel na regulação do comércio, o que já provocou queixas de países ricos, como os EUA e o Japão, e de companheiros emergentes, como a China e a Coreia do Sul.

Também nesta segunda-feira (9), a presidente Dilma Rousseff prometeu ajudar o novo diretor a destravar a rodada Doha. Em mensagem lida pelo chanceler brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, em Genebra, ela afirmou "forte compromisso" do Brasil para conseguir avanços na conferência de Bali. "O desafio de pôr as negociações de volta nos trilhos e de revigorar a OMC é importante", afirmou Dilma.

Em coletiva após o pronunciamento, Azevêdo agradeceu o apoio do governo brasileiro e afirmou já ter recebido respaldo de outros países também para o sucesso de Bali. "O grande desafio à frente é transformar estes apoios em mudanças e ações aqui em Genebra", afirmou.

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