São Paulo - O aumento da renda e o crédito fácil fazem o brasileiro sonhar mais alto este ano. É o que revela pesquisa feita pelo instituto Ipsos Public Affairs, que consultou 1.200 famílias em todo o País no fim de 2006. Do total de entrevistados, 46% responderam que pretendem consumir mais em 2007. Na pesquisa anterior, feita em dezembro de 2005, com as previsões para o ano seguinte, esse número era menor, de 39%.
Os sonhos de consumo continuam sendo móveis e eletrodomésticos, com 37% das intenções de compra, mas há maior intenção de crescimento expressivo em gastos com lazer e viagens, computadores e a compra da casa própria. Entre a classe C, cuja renda familiar é de R$ 1.161,88, a intenção de adquirir um computador saltou de 18%, em dezembro de 2005, para 23% no fim de 2006. A meta de ter a casa própria passou de 10% para 14% na mesma comparação.
A pesquisa mostra que a classe C passou a ter os mesmos objetivos de consumo da classe AB (R$ 2.325,38), inclusive para itens mais caros. ''Hoje o desejo de comprar um computador é praticamente o mesmo entre estas duas classes'', diz Franck Vignard Rosez, diretor da financeira Cetelem, que encomendou o estudo ao instituto.
O educador social Miroel José Santana Júnior, de 33 anos, é um exemplo da mudança de padrão de consumo. Ele acaba de realizar um sonho acalentado há mais de quatro anos: comprou um computador Pentium 4, parcelando o pagamento em 10 vezes no cartão de crédito. ''Com o computador em casa, consigo ter uma renda extra'', diz Santana. Casado e pai de uma filha, Franciely Silva Santana, de 10 anos, ele conta que prepara currículos, edita fitas de vídeo e consegue entre R$ 300 e R$ 500 por mês. Esse trabalho extra faz a sua renda mensal chegar até R$ 1.100.
Santana não está sozinho na realização do sonho de consumo. Segundo estimativa da consultoria IDC, cerca de 8,5 milhões de computadores, entre PCs e notebooks, deverão ser vendidos este ano no País, quase 1,5 milhão de unidades a mais em relação às vendas de 2006. ''No ano passado, o Brasil ultrapassou o Japão e o Reino Unidos na venda anual de computadores'', diz Reinaldo Sakis, analista do IDC. De acordo com ele, o Brasil passou a ocupar a terceira posição no ranking de vendas anuais, atrás apenas dos EUA da China. O crescimento está acelerado porque a proporção de computador por família no Brasil ainda é muito baixa comparada a outros países.
Viajar aparece como outro importante sonho de consumo da população. De acordo com a da Ipsos, esse item ocupa o terceiro lugar nos desejos das classes C e DE (R$ 571,05) e o primeiro nas classes mais ricas (AB).
Crédito - O crescimento das vendas está sendo alimentado especialmente pelo crédito fácil e pelo aumento da massa de rendimentos do trabalho, num cenário de inflação sob controle e juros em queda. Em fevereiro deste ano (último dado disponível), a massa de rendimentos nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atingiu R$ 22,4 bilhões, o que representa um crescimento de 21,7% ante fevereiro de 2004, descontada a inflação.
O resultado decorre do aumento da ocupação e do rendimento médio real, observa o economista Márcio Pochmann, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O rendimento médio real passou de R$ 1.008,50 para R$ 1.096,36, no período. A variação foi de 8,7%. Já o número de pessoas ocupadas passou de 19,4 milhões para 20,4 milhões, com alta de 5,1%. ''Como os ocupados gastam quase tudo o que ganham, essa elevação da massa de rendimentos é canalizada para o consumo'', diz Pochmann.
A oferta de crédito, outro combustível do consumo, dá sinais neste início de ano de que vai manter o ritmo de crescimento. No primeiro trimestre, bancos e financeiras confirmam que a demanda por crédito continua aquecida, especialmente no segmento consignado, cujo aumento foi de 50% em 12 meses.
A Associação das Empresas de Crédito, Financiamento e Investimento prevê expansão de 20% a 25% no saldo dos empréstimos ao consumidor neste ano. Se a projeção for confirmada, a carteira poderá atingir R$ 240 bilhões. No ano passado, fechou em R$ 191,9 bilhões, com crescimento de 23,4%.

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