Brasileiro está cético com juro menor
Márcia de Chiara
Agência Estado
O consumidor brasileiro está cético quanto à possibilidade de redução dos juros por conta do conjunto de medidas editadas na semana passada pelo governo para reduzir o custo do crédito. Ele também não pretende voltar às compras tão cedo por causa dessas mudanças. O 13º salário, que poderia dar um fôlego extra para o comércio neste último trimestre, ao que tudo indica, será usado para quitar dívidas em atraso ou irá direto para a poupança.
Vou comprar apenas lembrancinhas no fim do ano, disse a dona-de-casa Sandra Carminholi, de 38 anos, que planeja poupar a bonificação recebida pelo marido. No ano passado, ela conta que administrou da mesma forma essa receita extra e não se endividou.
Cautela e desconfiança também permeiam o consumo do casal de professores de Educação Física Jorge e Gisele Rodgerio Carlos. Há três meses com as mensalidades da casa própria em atraso, que somam R$ 2,7 mil, eles vão esperar que os juros efetivamente caíam para o consumidor antes de voltar às compras. Jorge acha que o governo deveria ter exigido contrapartidas dos bancos para ter garantias de que eles reduzirão efetivamente os juros para o consumidor ao criar mecanismos para reduzir o risco de crédito para essas instituições, como ocorreu na semana passada.
No caso do cheque especial, por exemplo, cujas taxas juros dos bancos serão divulgadas na Internet, a partir do dia 5, para dar maior transparência ao sistema e permitir que os clientes troquem de banco, Gisele não acredita nessa possibilidade. Há três anos no cheque especial, a professora conta que os bancos impõem tantas condições para o cliente abrir uma conta que, na prática, fica inviável trocar de instituição financeira.
Já o bancário Claudinei Moura, de 44 anos, planeja gastar o 13º salário em viagem de férias com os três filhos. Quero ir para Comandatuba ou Ilhéus, planeja. Nem mesmo as medidas anunciadas na quinta-feira para reduzir os juros animaram Moura voltar a comprar a prazo. Ele acha que a tendência é de os encargos financeiros recuarem, mas, por enquanto o juro está num nível muito alto. Prefiro comprar à vista.
Essa avaliação é compartilhada pela estudante Magda Masson Kalille, de 30 anos de idade, casada e com uma filha. Ela contou que parcela, no máximo, em três vezes sem juros as compras e que não assume crediários de longo prazo por se sentir insegura. Magda, que na sexta-feira percorria lojas de um grande shopping fazendo cotação de preços de equipamento de ginástica, disse que não acredita que as novas medidas vão fazer com que os juros baixem para o consumidor.
Com uma dívida em atraso no cartão de crédito, a auxiliar de um posto de saúde, Cláudia Marcílio, também não acredita que o pacote de medidas para diminuir os juros ao consumidor possa aliviar a pressão sobre os endividados. O estagiário Rafael Pinheiro, de 22 anos, concorda com Cláudia e não espera uma queda forte dos juros no curto prazo. Rafael teve que devolver o carro Tempra, comprado no início do ano, para quitar as prestações do financiamento obtido no Bozano, Simonsen. Não deu para continuar pagando depois que minha mãe perdeu o emprego de professora, explicou. Com um salário de apenas R$ 320,00 e quatro prestações de R$ 1 mil do carro em atraso, Rafael teve que devolver o bem para limpar o nome da mãe e seu do cadastro de inadimplentes.





