Rio O brasileiro voltou a desperdiçar energia elétrica, cinco anos após o início do programa de racionamento que reduziu em 20% o consumo, numa adesão que, na época, foi comparada à campanha dos ''fiscais do Sarney''. Segundo estimativa do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, o desperdício nas residências hoje chega a 20% do consumo.
O governo estima que há um potencial de economia de 7,2 mil megawatts (MW) médios para os próximos dez anos, suficientes para eliminar a necessidade de uma nova usina quase do tamanho de Itaipu, a maior do País.
Caso o crescimento econômico do País, que tem patinado em níveis abaixo de 3% ao ano, tivesse alcançado o índice pretendido de, pelo menos 5%, a demanda por eletricidade estaria ainda maior.
É consenso entre especialistas que a população, responsável pelos melhores índices de redução de consumo, está abandonando hábitos incorporados durante o racionamento. De junho de 2001 a fevereiro de 2002, o consumo residencial caiu 25%. A principal razão é a falta de campanhas que reforcem a necessidade de usar a eletricidade de modo inteligente.
''É mais barato investir para poupar energia do que construir usinas novas'', reconhece o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim. Ele sustenta que o aumento do desperdício ainda não cria risco de novo racionamento, mas o governo conta com uma meta ambiciosa de conservação em seu Plano Decenal de Energia Elétrica, principal documento de planejamento do setor.
Segundo Tolmasquim, além dos investimentos de US$ 40 bilhões na ampliação do parque produtor, o Brasil terá de economizar quase a eletricidade de uma Itaipu para chegar a 2015 sem riscos. A meta de economia tem base em dados disponíveis nos programas brasileiros de eficiência energética.
''Obter eficiência energética requer campanhas maciças de educação, o que não está ocorrendo desde o fim da crise'', lamenta o consultor David Zylbersztajn, que ajudou na elaboração do programa de racionamento de 2001. ''Houve uma baita desmobilização, o governo deixou de aproveitar a crise para criar políticas permanentes de conservação'', concorda o presidente do Instituto Nacional de Eficiência Energética (Inee), Jayme Buarque de Holanda.
Todos concordam que houve ganhos permanentes durante a crise, principalmente com a troca de eletrodomésticos velhos por equipamentos mais eficientes. De fato, o consumo por residência hoje, na casa dos 151 quiloWatts/hora (kWh) por mês, ainda é bem inferior aos 183 kWh por mês vigentes em 2000, volume que só deve ser atingido novamente em 2013.
''Mas alguns hábitos daquela época, como o uso de lâmpadas mais econômicas ou o maior controle no uso de eletrodomésticos, começam a se perder'', ressalta o professor de planejamento energético da Coppe, Roberto Schaeffer.
Medidas O secretário de planejamento do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, contesta as críticas e cita programas como o Procel ou o Programa Brasileiro de Etiquetagem, que certifica aparelhos de baixo consumo, como exemplos de políticas de conservação de energia em curso. ''No âmbito do Procel, temos trabalhado em conjunto com universidades para incorporar conceitos de eficiência energética em profissionais de diversas áreas'', explica.
O grande desafio, no entanto, é conseguir reduzir o consumo industrial, responsável pela maior parte da demanda de energia: 45%, enquanto o residencial fica em 25%; o comercial, em 15%, e outros, como iluminação e administração públicas, em outros 15%.
Em maio, o Brasil consumiu um volume de eletricidade 10% superior ao verificado no mesmo mês de 2000, antes da crise. A diferença só não é maior porque a economia tem patinado nos últimos anos, dizem as fontes. ''É muito difícil convencer um empresário a trocar um equipamento no meio de sua vida útil só para economizar energia. Na maior parte dos casos, os investimentos são direcionados para o aumento da produção e não para a melhoria dos processos'', diz Schaeffer, da Coppe.
O BNDES lançou em maio um programa para incentivar a criação de empresas de serviços de energia, conhecidas como Escos, especializadas em apontar medidas de redução do consumo em indústrias e comércio.

mockup