Brasil vê golpe da Argentina ao Mercosul
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quinta-feira, 05 de abril de 2001
Agência Estado De Buenos Aires 
A alteração do quadro tarifário argentino, que em um primeiro momento teve apoio total do governo brasileiro, não era o que foi vendido há cerca de 15 dias aos ministros Pedro Malan, Celso Lafer e Alcides Tápias e abriu mais uma crise no Mercosul, justamente no momento em que os quatro países do bloco precisavam estar mais unidos para enfrentar as duras discussões no âmbito da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A visita oficial que o presidente Fernando Henrique Cardoso faria à Argentina entre os dias 15 e 18 deste mês foi cancelada e criou um grande mal-estar diplomático. Tanto que o ministro Domingo Cavallo anunciou, ontem mesmo, a revogação da medida que zerava a alíquota de importação de bens de informática pela Argentina de países extra-Mercosul.
Houve apoio sim, mas nunca foi dado um cheque em branco, disse à Agência Estado um alto funcionário do governo brasileiro no final da noite de ontem, ao se referir à inclusão de produtos de bens de consumo duráveis (celulares e produtos de informática) na lista de bens de capital que serão beneficiados com a redução para zero da alíquota de importação de terceiros países.
Oficialmente, o Itamaraty explicou que FHC havia adiado a viagem porque estava com a agenda interna carregada. Mas o motivo não é esse. É evidente que os recentes gestos do governo argentino foram interpretados como um golpe ao Mercosul, deixando um tipo de rancor no Brasil, acrescentou essa fonte. Mas, disse esse funcionário, existem ainda uma série de pequenas coisas que fizeram perder a confiança na Argentina. Entre essas pequenas questões estão declarações de funcionários do governo do presidente Fernando de la Rúa sobre as intenções de a Argentina aproximar-se dos Estados Unidos.
Com explicações válidas ou não, tanto de um governo como de outro, o certo é que esse episódio provocou mais uma crise no Mercosul e, desta vez, o preço a ser pago pode ser muito mais alto do que nas vezes anteriores. Há mais de dois anos, por exemplo, que o Conselho do Mercado Comum (CMC), do qual fazem parte ministros de Economia, Relações Exteriores e Comércio dos países do bloco, não era convocado de forma extraordinária. Neste sábado, o CMC vai analisar as medidas adotadas por Cavallo para tentar resolver a falta de competitividade da Argentina.
Os ministros devem ainda discutir a tentação que os EUA exercem sobre o governo argentino. Tem uma concepção na Argentina de que o Brasil precisa eternamente conceder um superávit comercial. Ou seja, financiar o desenvolvimento argentino, criticou esse funcionário. Como o Brasil parece não estar disposto a assumir essa posição paternalista, a Argentina acaba ameaçando se aproximar dos Estados Unidos. Mas, agora, o risco é de o principal parceiro do Brasil no Mercosul tomar partido do governo norte-americano para acelerar o final das negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e, consequentemente, de antecipar a entrada em vigor dessa zona de livre comércio.
O setor privado brasileiro não encontra lógica na posição argentina de aproximar-se dos EUA, principalmente porque o país do presidente Fernando de la Rúa acaba de aumentar tarifas de importação para um número significativo de bens de consumo, medida criticada sempre pelo governo norte-americano. Os empresários brasileiros que se encontram em Buenos Aires para participar do 6º Fórum Empresarial das Américas vão além e indagam o que a Argentina poderia realmente exportar para os Estados Unidos. Petróleo, trigo, automóveis, autopeças, produtos de informática? Como, se a competitividade do país está prejudicada pela sua política monetária, indagou Michel Alaby, da Associação de Empresas Brasileiras no Mercosul (Adebim).
Antes de embarcar de volta para Buenos Aires, ontem à noite, Cavallo negou em Toronto que as suas medidas tenham provocado um conflito com o Brasil e colocado em risco o futuro do Mercosul. Não há diferenças com o Brasil, que tem colaborado com a Argentina de forma impressionante, disse o ministro. Cavallo deve reunir-se hoje com o ministro Alcides Tápias para revisar a situação de alguns produtos que parecem sensíveis para o Brasil.
Este último impasse entre o Brasil e a Argentina, dos vários que já ocorreram no transcurso dos últimos seis anos período em que a união aduaneira imperfeita está em vigor mostra claramente o equívoco do Mercosul ao limitar-se à questão tarifária, cuja desgravação (redução gradual) terminou em dezembro de 1994. Diante da globalização, restringir-se à defesa tarifária significa a morte, disse um funcionário do governo brasileiro.


