Puerto Iguazú - As bases da política externa brasileira, assentadas nas relações do Brasil no Mercosul e na estratégia Sul-Sul, não vão mudar. O recado foi disparado pelo assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, aos setores que questionam a eficácia dessa estratégia, em especial sobre os resultados na área comercial. Na prática, a orientação vem sendo confirmada pelas ações do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, um dos mais ferozes defensores dessa política.
''Mudar nossa política externa para abandonar o projeto de consolidação do Mercosul seria uma gigantesca bobagem'', diz Garcia. ''A política externa brasileira reforça a aliança do País com o Mercosul e seus vizinhos da América do Sul justamente com o objetivo de obter bons acordos comerciais, seja com a União Européia (UE) seja com a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) ou outros foros, e promover a inserção do Brasil na esfera internacional.''
O fato é que, se o governo Lula assumiu alguma herança do antecessor, esse espólio foi a busca da inserção comercial do País no mundo por meio do Mercosul. Mesmo no período Fernando Henrique, a insistência nesse eixo foi alvo de duras críticas dentro e fora do governo, em especial quando conflitos e pendências entre os sócios do bloco indicavam o recuo no processo de integração.
A persistência do Brasil no projeto Mercosul tem pelo menos uma razão sólida. Desde o início de sua implementação, em janeiro de 1995, o bloco atraiu investimentos que seus sócios dificilmente conseguiriam sozinhos. O Brasil foi o mais favorecido.
Paralelamente, a vigência do livre comércio entre os quatro sócios garantiu o aumento da eficiência dos setores produtivos que exploraram a lógica dos mercados nacionais ampliados. Com maior escala de produção, ganharam em competitividade e puderam, assim, ensaiar a exposição externa a outros mercados - algo que se vê estampado nos resultados da balança comercial brasileira.
''Temos de tirar as negociações do âmbito ideológico e traçá-las conforme os interesses nacionais. Expusemos claramente que a aliança regional está baseada em afinidades e complementaridades naturais entre as nossas economias'', argumentou Garcia. ''Por que a UE pode fazer o seu bloco, os Estados Unidos podem montar o seu e nós não?''
Na visão deste governo e do anterior, abandonar o Mercosul traria um custo econômico, além de um considerável estrago na imagem política dos sócios. ''Não vejo que vantagens teriam os países sócios e seus governos, incluindo o Brasil, ao reconhecer o fracasso do Mercosul. Tampouco vejo razões para que cheguem a esse extremo'', afirmou o especialista argentino Félix PeÀa, da Fundação BankBoston, um dos idealizadores do bloco.
Dentro do governo, entretanto, sabe-se que a insistência do Brasil em manter sua política comercial atrelada ao Mercosul impõe limitações. Em especial, porque o bloco não conseguiu consolidar-se plenamente como uma área de livre comércio e como uma união aduaneira.
As exceções nesses dois âmbitos da integração comercial acabam por fragilizar o próprio bloco nas negociações mais pesadas, por exemplo, com a União Européia. ''A questão não é que o Brasil seja grande demais para o Mercosul. Mas, por ser um 'global trader', o País encontra limites dentro de um mercado apenas sub-regional'', afirmou um experiente diplomata.

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