Nova York e São Paulo - O presidente americano, Donald Trump, acusou nesta segunda-feira (1º) o Brasil de ser um dos mais difíceis do mundo para se ter relações comerciais. Ele disse que a forma como as empresas americanas são tratadas no país é injusta.

As críticas geraram reações no Brasil. O MDIC (Ministério da Indústria, Comércio e Serviços) afirmou que os Estados Unidos tiveram superávit de US$ 90 bilhões (362,4 bilhões) nos últimos dez anos apenas no comércio de bens. "É uma beleza, eles cobram de nós o que querem. Se você perguntar a algumas das empresas, elas dizem que o Brasil está entre os mais difíceis do mundo, talvez o mais difícil do mundo", afirmou Trump.
"Nós não ligamos para eles e dizemos: 'Ei, vocês estão tratando nossas empresas injustamente, vocês estão tratando nosso país injustamente'."
Para Trump, o problema é que nenhum presidente americano anterior tentou negociar as relações com o Brasil.

Foi a primeira vez que o americano reclamou do País, mas não é a primeira vez que o Brasil se torna alvo do governo americano. A principal disputa no momento diz respeito ao desejo do Brasil de ingressar na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Em junho de 2017, o País deu entrada no pedido formal. Em março deste ano, os EUA bloquearam o início do processo de análise da solicitação dentro do organismo internacional.

Após as críticas de Trump, o secretário de Comércio Exterior do MDIC, Abrão Neto, rebateu o suposto desequilíbrio nas relações comerciais entre Brasil e EUA. "Se forem considerados bens e serviços, essa relação é favorável para os EUA em US$ 250 bilhões [R$ 1 trilhão]", afirmou o secretário, durante a divulgação da balança comercial brasileira de setembro.

"No ano passado, nossas exportações para os EUA cresceram 6,2%, e nossas importações mais que o dobro, 13,3%", disse Neto. O secretário afirmou que há diversos temas que podem ser aprofundados na relação bilateral.

Já o presidente do conselho da Amcham (Câmara Americana de Comércio), Hélio Magalhães, disse discordar de Trump sobre o Brasil ser difícil nas negociações. "Não é que nós negociamos de uma forma mais dura. A questão é que o Brasil é um país que sempre protegeu a produção interna. Mas isso não é nenhuma novidade."

Para Magalhães, porém, esse comportamento deixa a participação do País no comércio global muito aquém de sua capacidade. "O Brasil tem a oitava maior economia do mundo, mas sua participação é de 1,2%." Um papel mais forte nas negociações globais depende do País melhorar a competitividade aqui dentro, afirmou.

"Isso passa por uma carga tributária menor e menos complexa, os parceiros comerciais precisam sentir uma estabilidade jurídica. Há também uma burocracia ineficiente que não colabora e deixa tudo mais caro."

Segundo Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, Trump provavelmente não se referia a tarifas brasileiras sobre produtos americanos, que são, na maioria, bastante baixas. "Ele afirmou que o Brasil é o mais duro do mundo com as empresas americanas, e acho que ele está falando sobre os impostos cobrados das empresas, a taxação, o custo Brasil - que, de fato, é muito alto", disse Barbosa, que é presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp (Federação da Indústria em São Paulo).

"O Brasil não tem uma economia fechada para os produtos americanos, mas tem, sim, alta taxação das empresas americanas que operam aqui, e das brasileiras também", completou.

Os ataques de Trump ao Brasil ocorreram após um jornalista questionar o republicano sobre as relações comerciais com a Índia, também acusada de cobrar "enormes tarifas". Trump acusou ainda "o resto do mundo" de querer tirar vantagem dos EUA.

O republicano convocou a imprensa para comentar a decisão do Canadá de aderir ao USMCA, acordo entre EUA-México-Canadá na sigla em inglês, em substituição ao Nafta.

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