O Brasil está torcendo para que o desfecho da crise argentina seja a flutuação do câmbio, e não a dolarização seja com ou sem uma desvalorização prévia. De forma geral, economistas, diplomatas, empresários e observadores brasileiros da situação argentina não acreditam que o país vizinho possa sair da atual combinação de depressão econômica e crise financeira sem flutuar a sua moeda. Nesta visão, é preciso deixá-la desvalorizar pelas forças de mercado até o ponto em que a economia recupere a sua competitividade, e que faça sentido novamente investir e produzir na Argentina.
Não há dúvida de que a desvalorização será turbulenta, com muitas falências de empresas e problemas gravíssimos no setor bancário. Mas, na visão consensual do Brasil, é o menor dos males. O outro, a dolarização, mesmo que precedida de desvalorização um experimento exótico, de sucesso duvidoso , é visto como a insistência no erro que levou a Argentina à atual crise.

Aloísio Araújo, economista da Fundação Getúlio Vargas do Rio (FGV-Rio), observa que o pior aspecto da desvalorização é que ela leva necessariamente à reestruturação da dívida pública e privada em dólares. Porém, como isto já está acontecendo com a dívida pública, há menos a perder. ''Eu acho muito ruim que não se aproveite a renegociação da dívida para desvalorizar'', ele diz.

A posição do Brasil em relação à Argentina, baseada na experiência brasileira bem-sucedida de flutuação do real a partir de janeiro de 1999, antecipou o movimento da comunidade financeira internacional. Os dois últimos economistas-chefes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) Guillermo Calvo, o atual, e Ricardo Hausmann, seu antecessor defendiam com firmeza o câmbio fixo (Hausmann mudou de idéia há pouco tempo). E só recentemente o mercado financeiro internacional fechou questão em torno da desvalorização.

Para o governo brasileiro, a questão crucial do momento é a de que a Argentina consiga sair da crise dramática em que se meteu, e a desvalorização é o melhor caminho. O governo vê o problema do contágio, isto é, a piora do risco Brasil causada pelo colapso argentino, como superado, em relação às hipóteses mais pessimistas. A desvalorização do dólar nas últimas semanas parece ser uma demonstração daquela crença. Mas uma Argentina em depressão econômica enfraquece o Mercosul.

Para Araújo, o contágio, embora aplacado, não está necessariamente morto. E o Mercosul enfraquecido é um obstáculo à tentativa do Brasil de cercar-se dos países do Cone Sul para enfrentar as negociações comerciais da rodada Doha de comércio multilateral, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC); da Área de Livre Comércio para as Américas (Alca); e do acordo entre o Mercosul e a União Européia (UE).

O presidente da Associação de Empresas Brasileiras para a Integração de Mercados (Adebim), Michel Alaby, acha que a combinação entre a eventual dolarização total da economia argentina e a aprovação da Trade Promotion Authority (TPA ou o antigo ''fast track''), que reforça o poder da Casa Branca de negociar acordos comerciais, abre um precedente que pode enterrar de vez o Mercosul, pelo menos do ponto de vista econômico-comercial.

''Se a Argentina completar a dolarização de sua economia, os Estados Unidos praticamente vão absorver a Argentina e, nesse caso, o Brasil ficaria isolado'', analisa Alaby. Ele acredita ainda que outro agravante para o Brasil seria o forte ''risco de contaminação'' da dolarização argentina na região. Países como o Uruguai, Paraguai e Bolívia, por exemplo, poderiam seguir os passos da Argentina, isolando o Brasil.

Do ponto de vista comercial, uma dolarização não mudaria muito o panorama atual da relação Brasil-Argentina. Se fosse precedida de uma desvalorização, poderia tornar o país vizinho um pouco mais competitivo, mas o comércio entre as duas nações continuaria minguando, como vem ocorrendo à mercê da depressão argentina.

Uma desvalorização, por outro lado, seria uma situação mais complexa. Ela certamente aumentaria a corrente de comércio entre o Brasil e Argentina, como observa Araújo, o que seria positivo do ponto de vista da integração econômica dos dois países e do fortalecimento do Mercosul. A desvalorização também facilitaria a coordenação macroeconômica no Mercosul, e tornaria factível de novo o projeto de uma moeda comum no longo prazo.

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