A recente contenção da inflação na América Latina indica que será permanente. No Brasil, as mudanças de política na hora certa ajudaram a manter a inflação sob controle após a desvalorização do real no início do ano passado, o que permitiu que o País apresentasse uma recuperação surpreendentemente rápida. As conclusões constam do 70º Relatório Anual 1999/2000 do BIS (Banco para Compensações Internacionais), espécie de banco central dos bancos centrais, que cobre o ano fiscal de 1º de abril de 1999 a 31 de março passado.
O documento, divulgado na Internet (www.bis.org), foi apresentado à Assembléia Geral Anual do BIS, ontem, na sede na instituição, na Basiléia (Suíça). O desenvolvimento macroeconômico na América Latina no período apresentou caractísticas incomuns no ano passado, não só em relação a outros mercados emergentes, mas também comparados com as tendências históricas da região, segundo o relatório. Contrariando o padrão, a depreciação do câmbio ou o abandono do câmbio atrelado não levou ao aumento da inflação, afirma.
Segundo o BIS, no Brasil, como na Rússia, a recuperação se deveu em parte às políticas que evitaram o repasse da desvalorização à inflação interna. A desvalorização do real no início de 1999 foi um evento-chave para os países da América Latina, que, no período coberto pelo estudo, apresentaram desempenho econômico divergentes. Com exceção do México, boa parte da América Latina sofreu recessão ao longo do ano passado. A inflação no período na região é estimada em 9,1%, abaixo portanto do 10,5% do ano anterior. O desempenho do PIB é estimado em 0,1%, de 1,9% em 1998.
No Brasil, acrescenta o BIS, o abandono do regime de câmbio quase fixo não desencadeou uma crise, primeiro porque a demanda já estava deprimida e, segundo, porque a adoção de uma política monetária apertada e de novas medidas de contenção fiscal levaram confiança aos investidores e limitaram a resposta inflacionária. Além disso, segundo o BIS, a desvalorização não causou um problema agudo para o sistema bancário porque a maioria dos bancos tinha um equilíbrio favorável de ativos e passivos denominados em dólares e bem administradas operações de derivativos.
Em particular, as instituições financeiras detinham títulos do governo indexados ao dólar e com juro flutuante, de boa liquidez. Com isso, afirma o relatório, os bancos puderam enfrentar os saques e o corte nas linhas de créditos de bancos estrangeiros sem sofrerem problemas severos de liquidez. O documento lembra que o anúncio da segunda tranche de apoio financeiro do FMI em março de 1999 e um acordo informal para a rolagem da dívida com bancos internacionais permitiram que o governo reduziu as taxas de juro do pico de 45% no fim de março. (A.E.)

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