Brasil tem papel essencial para garantir segurança alimentar
Debate aponta potencial de expansão do agronegócio brasileiro e melhoria na comunicação para consolidar o papel do país no abastecimento mundial
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de setembro de 2025
Debate aponta potencial de expansão do agronegócio brasileiro e melhoria na comunicação para consolidar o papel do país no abastecimento mundial
Aline Machado Parodi e Simoni Saris 

A necessidade do Brasil se posicionar mais firmemente como protagonista na questão da segurança alimentar mundial e reforçar que o agronegócio brasileiro é sustentável e competitivo foram pontos levantados nos debates durante o 6º Fórum do Agronegócio, realizado no dia 4 de setembro, pela Sociedade Rural do Paraná, em Londrina.
A falta de alimento é um dos grandes problemas do mundo, as projeções são que em 25 anos, a população mundial ultrapasse os 10 bilhões de habitantes, principalmente na Ásia e na África. Cerca de 70% da população mundial se alimenta de soja, trigo e milho e está cada vez mais limitada a área de produção destes grãos.
Diante deste cenário, a América Latina, em especial o Brasil, é o país que ainda apresenta potencial de crescimento de área de produção. “Nós não irrigamos absolutamente nada perto do que Nebraska, nos Estados Unidos, já faz e alguns outros países já fazem. A produção de milho pode ir para 40% a mais, na soja, de 18% a 20%. O Brasil pode ter essa oportunidade de ser esse supermercado do mundo de fato. E abastecer o mundo como um todo, produzindo ainda mais”, disse o governador Ratinho Junior.
Wagner Kronbauer, sócio-diretor da Apex, afirmou que o Brasil está bem posicionado no mercado mundial, mas falta habilidade para promover o agronegócio brasileiro, suas potencialidades e o papel do Brasil para a segurança alimentar mundial. “O Brasil é um ponto imprescindível para a segurança alimentar mundial”, disse. “Imagine só se o Brasil diminuísse em 50% sua produção do agro, o que aconteceria com essa população, principalmente a mais pobre, não só aqui no Brasil, mas no mundo? E eu acho que usamos pouco esse poder dos dados e da força do agro. A principal necessidade do futuro, é essa: segurança alimentar. Eu acho que a nossa diplomacia, a nossa política usa pouco esse poder para se impor, para negociar melhores condições do Brasil na geopolítica mundial”, complementou.
Em 2024, a agropecuária representou 9% do PIB (Produto Interno Bruto) do Paraná, segundo o Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social). O valor acumulado pela atividade somou R$ 64,7 bilhões no período.
Soja, milho, trigo, frango e suínos estão na lista dos principais itens produzidos e exportados pelo Paraná. Mas manter o status de “supermercado do mundo” exige atualização constante, investimentos em inovação e tecnologia, adoção de práticas cada vez mais sustentáveis e muito jogo de cintura para contornar desafios que se apresentam a todo instante, como os efeitos das mudanças climáticas e da recente sobretaxa, aplicada pelos Estados Unidos às exportações brasileiras.
VALOR AGREGADO
O Paraná é um bom exemplo de agregação de valor das commodities agrícolas, de acordo com Kronbauer. O Estado é o segundo maior produtor de grãos do país, cerca de 45 milhões de toneladas/ano, atrás do Mato Grosso, mas para abastecer as indústrias de proteína animal precisa importar grãos.
Essa proteína animal industrializada é exportada para 170 países. O faturamento das cooperativas paranaense no ano passado girou em torno de R$ 250 bilhões e a média de crescimento é de 25% ao ano.
Para fomentar ainda mais o crescimento, o governo do Estado criou o Fiagro (Fundo de Investimento em Cadeias Produtivas Agroindustriais), para financiar projetos de infraestrutura, industrialização da produção agrícola e agregação de valor às commodities do Paraná, com um aporte inicial do Fomento Paraná e gestão privada.
“O Fiagro foi uma grande solução, justamente para fortalecer cada vez mais a indústria do nosso Estado e gerar mais emprego, industrializar esses produtos para ter valor agregado e gerar muita riqueza para a gente”, afirmou Ratinho Junior.
MAIS VISIBILIDADE
O agronegócio bem compreendido foi um dos pilares do tema do Fórum. Os painelistas acreditam que o Brasil não sabe se comunicar com o consumidor e com o mundo. O presidente da Sociedade Rural do Paraná, Marcelo Janene El-Kadre, ressaltou que a produção agrícola brasileira é sustentável, não apenas para atender uma demanda mundial, mas por compreender que o futuro do setor depende da conservação do solo, da água, da biodiversidade e da transição energética.
“O Brasil se destaca como potencial em energia limpa, mas precisamos transformar isso em liderança global e ser bem compreendido é um dos maiores desafios da atualidade, o agro precisa comunicar a sua contribuição para a economia, para a segurança alimentar e para a geração de empregos. Precisa se conectar com o consumidor para fortalecer a imagem do setor e aproximar a sociedade da realidade”, afirmou.
Dagoberto Bernini, sênior diretor AG&Trading Latam Comercial na Cargill, acredita que falta uma política mais eficaz para mostrar as potencialidades do agronegóciobrasileiro. “É uma das agriculturas mais sustentáveis do mundo, usamos tecnologias e temos energias renováveis, o Brasil vai ser o grande ‘supermercado do mundo’, devemos aumentar a nossa produção para atender a demanda crescente mundial. Precisamos mostrar melhor para tirar uma imagem que não é real. Sabemos que tem um lado comercial por trás, o Brasil assusta o mundo quando produz o que produz e da maneira que produz., mas precisamos mostrar melhor, porque já somos sustentáveis”, afirmou.
O vice-presidente da Cooperativa Integrada, João Francisco Sanches Filho, afirma que essa falta de comunicação clara impacta diretamente nas relações com outros mercados. “Um exemplo são as barreiras protecionistas que a Europa e outros país impõem sobre os produtos brasileiros. A comunicação é o nosso maior gargalo”, disse.
Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, o deputado federal Pedro Lupion (PP-PR) ressaltou que a relevância que o agronegócio paranaense conquistou no mundo só foi possível por meio da tecnificação e dos investimentos, que possibilitaram o desenvolvimento do setor. “Não tem estado e produtores que produzam com a responsabilidade ambiental que o Paraná tem. Nos preocupamos todos os dias e damos exemplo ao Brasil inteiro de como deve ser feito. É por isso que saem daqui as boas práticas, as boas iniciativas e nós estamos no patamar em que estamos", afirmou o parlamentar.
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O prefeito de Londrina, Tiago Amaral, ressaltou que algumas das inovações “mais disruptivas” já aplicadas pelo agronegócio, foram difundidas a partir do Norte do Paraná. “O plantio direto, a multicultura e diversas outras ações foram criadas e desenvolvidas aqui na nossa região e mudaram o patamar do agronegócio no mundo todo”, pontuou Amaral, reconhecendo a importância do trabalho realizado por instituições como a UEL (Universidade Estadual de Londrina), o IDR-PR (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná) e a Embrapa.
MÃO DE OBRA
As dificuldades para a contratação de mão de obra com carteira assinada foi um dos tópicos discutidos no 6º Fórum do Agronegócio. Para o vice-presidente da Cooperativa Integrada, João Francisco Sanches Filho, isso é reflexo dos auxílios do governo, como o Bolsa Família. “É um problema momentâneo, mas que atinge toda a cadeia, não só da cooperativa, mas da indústria e da academia”, disse Sanches.
Na opinião dele, o governo poderia reavaliar os critérios para concessão do benefício, permitindo que a pessoa recebesse mesmo com carteira assinada. A Cargill entende essa falta de mão de obra como uma oportunidade para mostrar para a equipe que é possível fazer mais com menos. “Não tem mão de obra suficiente para crescer tudo que precisa. É aí que vamos usar a tecnologia disponível, a inteligência artificial, não para tirar a mão de obra, pelo contrário, para liberar a mão de obra que a gente tem hoje fazendo processos manuais, para que ela possa fazer pesquisa e de atendimento ao farmer. É com a ajuda da tecnologia e inteligência artificial que a gente vai conseguir atender essa demanda, de forma competitiva”, explicou Dagoberto Bernini, sênior diretor AG&Trading Latam Comercial na Cargill.




