Agência Folha
De Brasília
Sempre se comentou sobre a dependência argentina com relação ao mercado brasileiro – cerca de 30% das exportações argentinas são para o Brasil.
Mas, para alguns funcionários do governo federal, a dependência do Brasil em relação à Argentina é maior do ponto de vista qualitativo, embora apenas 11% das exportações do País tenham como destino o vizinho. Essa dependência se refere à qualidade do que é exportado e do que é importado, explica o embaixador José Alfredo Graça Lima, secretário de Assuntos de Integração, Econômicos e de Comércio Exterior do Itamaraty.
Excluindo o setor automotivo, cujo comércio é incentivado por regras especiais, o Brasil exporta para a Argentina principalmente produtos mais elaborados (como os manufaturados) e importa commodities agrícolas e alimentos (como o leite em pó).
A primeira vantagem argentina é que é mais fácil redirecionar as commodities agrícolas para outros mercados que produtos industrializados, afirma o embaixador. As commodities são produtos consumidos em todos os mercados, cujos preços são estabelecidos internacionalmente. Segundo o professor de economia da Unicamp Fernando Sarti, a Argentina e os países da América Latina são os mercados nos quais o Brasil é realmente competitivo na venda de máquinas e equipamentos.
No segmento de máquinas, o Brasil tem um superávit de US$ 695 milhões com a Argentina. Como regra geral, o País teve saldos positivos, em 1999, em todos os setores de produtos mais elaborados, como a indústria de alimentos (US$ 13 milhões), a de produtos químicos (US$ 208,6 milhões) e a de plásticos (US$ 163 milhões).
Na análise de Graça Lima, os equipamentos brasileiros são tecnologicamente menos avançados que seus competidores mais desenvolvidos, como a Alemanha, mas têm preços mais baratos e são mais adequados para a realidade industrial dos países menos desenvolvidos, leia-se Argentina e América Latina. Segundo Sarti, 55% das exportações brasileiras para o mundo são de produtos manufaturados. Para a Argentina, a porcentagem sobe a 90%.
Outro dado que revela a maior dependência brasileira com relação à Argentina é a composição do próprio déficit comercial, US$ 448,4 milhões no ano passado. Se forem descontadas as compras de petróleo e trigo, o Brasil passa a ter um superávit de US$ 732,24 milhões. Em 1999, o Brasil importou da Argentina US$ 784,9 milhões em trigo e US$ 395,8 milhões em petróleo.