CautelaGustavo Franco: decisão, só no retorno da comitiva que está em Hong KongO governo estuda com afinco propostas para fazer este ano uma nova emissão de títulos da dívida de longo prazo do Tesouro Nacional, apelidados no mercado internacional de ‘‘global bonds’’, informou ontem o diretor da Dívida Externa do Banco Central (BC), Demósthenes Madureira de Pinho Neto. O presidente do BC, Gustavo Franco, disse a Agência Estado que a decisão sobre o assunto, porém, não virá antes da volta da comitiva brasileira da reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial.
Para alguns financistas presentes à reunião, um dos motivos para a ida do Brasil ao mercado internacional é a necessidade que o País tem de captar cerca de US$ 3 bilhões para financiar o déficit em conta corrente. Muitos banqueiros, porém, concordam com Demósthenes, para quem o lançamento só vale a pena porque vai criar uma referência no mercado internacional, para orientar os juros cobrados dos bônus de empresas brasileiras.
‘‘Vamos ouvir várias opiniões e, quando chegarmos ao Brasil, vamos ver o que devemos fazer’’, comentou Gustavo Franco. Apesar da declaração, o possível lançamento de global bonds é visto com simpatia no BC e no Ministério da Fazenda. A decisão do governo é aguardada com ansiedade por investidores e especuladores que acompanham os eventos paralelos à reunião anual do FMI, em Hong Kong.
Na sexta-feira, as taxas de risco dos títulos da dívida externa renegociada do Brasil, os chamados brady bonds, tiveram grande queda no mercado secundário, diante de rumores de que o governo brasileiro anunciaria em Hong Kong o lançamento de um lote de global bonds, com dez a 15 anos de prazo.
‘‘As pessoas esperam bons comentários de Gustavo Franco na segunda-feira, que podem tomar a forma de progresso na privatização, nova recompra de brady bonds ou o lançamento de global bonds’’, declarou à agência de notícias ‘‘Reuters’’ um corretor especializado em títulos de dívida renegociada. O lançamento de novos títulos da dívida ou, principalmente, de global bonds, será um dos principais assuntos das dezenas de encontros que a comitiva brasileira terá com banqueiros durante a reunião do FMI e Banco Mundial.
‘‘O financiamento do déficit em conta corrente é absolutamente tranquilo e, por esse lado, não haveria necessidade de fazer, seja uma troca de títulos, seja um novo lançamento no mercado internacional’’, disse Demósthenes. ‘‘O que nos move a analisar com afinco essas operações é muito mais construir uma estrutura a termo de taxas de juros, ter uma referência para títulos de cinco, dez, vinte, trinta anos.’
‘‘Nós pensamos, e repito, pensamos, em fazer alguma coisa, mas, como não temos necessidade de fazer, só faremos se as condições de mercado forem absolutamente convidativas e favoráveis para fazer alguma coisa’’, afirmou o diretor do BC, que classificou a posição do governo como ‘‘cautelosa’’.
Essas declarações são melodiosas para os ouvidos dos banqueiros em Hong Kong. ‘‘Quando começam a dizer que estão pensando, é porque querem dizer que vão fazer, mas estão incentivando os bancos a oferecer as melhores condições possíveis’’, interpreta o presidente de um ativo banco de investimentos brasileiro, presente à reunião do Fundo.
Na bagagem de Franco para Hong Kong foram incluídas pelo menos 25 propostas feitas por instituições interessadas em lançar títulos de longo prazo do Brasil no mercado internacional. O interesse desperta comentários admirados de executivos que conhecem a história do Brasil no mercado internacional. ‘‘É espantoso quando pensamos que há poucos anos o Brasil não conseguia colocar nem títulos de curtíssimo prazo no mercado’’, comentou à Agência Estado o ex-diretor-geral do FMI Jacques de La Roisiere. ‘‘É uma demonstração de quanto foi alcançado pelo País’’, elogiou.
As propostas dos banqueiros oferecem prazos entre cinco e 30 anos, com juros e condições muito variáveis. A maioria, porém, sugere um prazo de dez anos, o que interessa ao governo - a discussão, na equipe econômica, concentra-se na conveniência do lançamento de novos global bonds de dez ou de 20 anos. O mercado, segundo integrantes da comitiva brasileira, parece favorável ao lançamento de títulos brasileiros, que existem em pouco número.

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