São Paulo – O Brasil teve um superávit de US$ 19 bilhões no comércio do agronegócio, no ano passado. Exportou US$ 23,9 bilhões e poderia ter vendido muito mais, se o mercado global fosse menos afetado por subsídios e barreiras protecionistas. Barreiras impedem o acesso a grandes mercados, enquanto subsídios distorcem a concorrência e derrubam preços.
A exportação brasileira de soja e derivados, que rendeu US$ 5,2 bilhões em 2001, poderia proporcionar pelo menos mais US$ 1 bilhão por ano, se a subvenção aos produtores norte-americanos fosse eliminada, calcula o governo brasileiro.
É fácil entender, com dados como esses, por que a agricultura é um tema prioritário para a diplomacia brasileira, nas negociações de acordos comerciais. Nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, lobbies politicamente poderosos continuam pressionando os governos para manter o protecionismo. Mas começam a surgir, pela primeira vez, sinais de que o jogo poderá ser mudado a favor das economias em desenvolvimento. Alguns dos sinais mais claros apareceram na reunião do Fórum Econômico Mundial, em Nova York, em que a agricultura foi um dos temas de maior importância em debate pelos conferencistas do mundo todo.
Mudanças vêm ocorrendo – algumas surpreendentes – nos debates sobre política agrícola nos Estados Unidos e na União Européia. Em Washington, a Câmara de Representantes aprovou um projeto de lei para acrescentar cerca de US$ 70 bilhões aos subsídios agrícolas até 2010.
Entre os senadores, no entanto, há resistência ao projeto que mantém a política de subsídios aos produtores norte-americanos, em detrimento de outros países produtores. O assunto ainda vai ser votado, mas os senadores aprovaram, na quinta-feira, um teto para os subsídios, que não poderão ser superiores, em cada ano, a US$ 275 mil por fazenda. Pelas regras atuais, os pagamentos são limitados a US$ 460 mil. Nada garante, no entanto, que a resistência dos senadores possa resultar em mudanças fundamentais na política agrícola.
O Executivo americano tem sido sensível às pressões dos lobbies agrícolas, mas, mesmo assim, tomou posição contrária, em outubro, ao projeto que seria aprovado na Câmara de Representantes, ampliando os subsídios e favorecendo uma elite.
As críticas à política intensificaram-se nas últimas semanas. Reportagens e artigos têm mostrado aos eleitores que a maior parte dos benefícios vai para os maiores agricultores, entre os quais há até banqueiros. O lobby continua poderoso e não se pode prever, a curto prazo, grande mudança nas políticas americanas de subsídios e barreiras. A nova discussão, no entanto, vem mostrando aos norte-americanos – e aos outros países, também – que a política agrícola não é o que se diz tradicionalmente e que muitos pagam para benefício de poucos.

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