São Paulo - O Brasil terá, em dois anos, uma usina própria, de escala semi-industrial, para produzir até 40 toneladas por ano de gás de urânio, a última etapa do complexo ciclo do combustível nuclear que o País ainda não domina. A fábrica está parcialmente construída no Centro Experimental de Aramar, que a Marinha mantém no município de Iperó, a 130 quilômetros de São Paulo. O volume de produção atenderá às necessidades do Comando da Marinha. A força utiliza o hexafluoreto de urânio para ensaios científicos e para enriquecimento do mineral - o combustível do reator compacto que equipará um submarino nuclear de ataque, previsto para depois de 2020.
Ainda será necessário investir cerca de R$ 40 milhões na conclusão da montagem de sistemas e processos. A Financiadora de Projetos e Pesquisas (Finep) destinou R$ 23,60 milhões para o projeto, neste ano e em 2008.
Atualmente o urânio transformado em yellow-cake, o primeiro estágio químico do refino, é enviado em tambores de 400 quilos para a empresa Cameco, do Canadá, que realiza, sob contrato, o trabalho de conversão para o gás.
Segredo - O serrado paulista, um resto da Mata Atlântica que acompanha o traçado da sinuosa estrada de Iperó, guarda segredos de Estado. A vegetação abriga uma cerca dupla, guaritas de vigilância ocupadas por fuzileiros navais e também redes de sensores eletrônicos de movimento e calor. Além da barreira, conjuntos de prédios, alguns visíveis, outros intencionalmente isolados, guardam as linhas de experimentação do reservado Programa de Capacitação Nuclear desenvolvido pelo Centro Tecnológico da Marinha (CTMSP). Ao longo de 28 anos, o custo do projeto chega a US$ 1,117 bilhão.
Intrusos, claro, não são bem-vindos ao local onde, até 2010, o Comando da Marinha pretende ter em funcionamento a fábrica de hexafluoreto de urânio e onde é escondida outra planta, a da construção das ultracentrífugas, poderosas máquinas utilizadas pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB) no processo de enriquecimento do minério.
Nos laboratórios são feitos procedimentos notáveis, como a solda fina de cerâmica e metal. O método é fundamental para a fabricação das válvulas TWT, de múltiplo emprego. No Centro, o que interessa são certos procedimentos envolvendo partículas, como os fugidios fótons e elétrons. Em determinados momentos, a prática equivale a promover uma redução na velocidade da luz.
Nem tudo, entretanto, é ciência. Há 20 anos, o então presidente José Sarney havia decidido revelar a existência do programa nuclear paralelo - secreto, na verdade. Logo depois, convidou o presidente Raúl Alfonsin, da Argentina, para assistir ao início da operação de uma cascata de 48 ultracentrífugas, no Centro Aramar, em Iperó.
A data da festa, 15 de março, foi considerada desfavorável pelo engenheiro de reatores, físico e astrólogo Kesavan Na‹r, indiano radicado no Brasil. Melhor seria qualquer dia depois de 28 do mesmo mês.
O diretor do CTMSP da época, almirante Othon Pinheiro, decidiu consultar o ministro da Marinha, Ivan Serpa, que submeteu a questão ao supersticioso Sarney. O presidente foi cuidadoso: transferiu a cerimônia para 8 de abril.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai ao Centro Experimental no dia 10 de julho. Além da pesquisa no ciclo do combustível, verá o modelo, em escala, do submarino e o seu reator de testes. Pronto, desmontado e esperando recursos para entrar em atividade.
Para a certificação da usina de hexafluoretação, os especialistas de Aramar, em Iperó, criaram uma bancada de ensaios. A primeira amostra de conversão de yellow-cake em gás foi obtida em 13 de dezembro de 2005, ''prova de que o CTMSP está na direção do domínio completo dessa rara tecnologia'', afirma o almirante Carlos Bezerril, diretor do Centro Tecnológico.
O Brasil tem reservas minerais de urânio estimadas em 800 mil toneladas - a serem prospectadas -, além de 309,3 mil de dimensões conhecidas e valor econômico comprovado. Para que possa ocorrer o enriquecimento (ou separação isotópica entre o U235, com capacidade de produzir energia, e o U238, residual empobrecido), por ultracentrifugação, é preciso que o minério de urânio seja convertido em gás estável.
Após o aumento da concentração por meio do repasse de máquina para máquina, centenas delas, na forma de cascata, é feita a reconversão para o estado sólido. No formato do composto cerâmico UO2, o urânio é colocado dentro das varetas de combustível dos reatores - de energia elétrica ou como interessa à Marinha, dos propulsores de submarino.

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